O contrato de referência do gás holandês, o famoso TTF, voltou a subir nesta semana, e a desculpa oficial é a de sempre quando o tabuleiro do Oriente Médio range: as conversas entre americanos e iranianos não saem do papel, os combates se intensificaram, e o mercado, esse organismo sensível que detecta risco antes de qualquer chancelaria admitir, simplesmente reagiu. Não há mistério aqui. Há um padrão antigo, repetido com a regularidade de um relógio suíço, que beneficia exatamente as mesmas pessoas há décadas. Quem produz energia em ambiente seguro vende mais caro quando o ambiente alheio fica inseguro. É elementar, e por isso ninguém quer falar disso em voz alta.

O europeu médio, aquele cidadão que paga IVA de vinte e poucos por cento sobre cada metro cúbico de gás que esquenta seu radiador no inverno, está sendo informado pela enésima vez de que precisa apertar o cinto por causa de uma guerra a cinco mil quilômetros de casa. A explicação tem aquela aura técnica que desarma qualquer pergunta inconveniente: volatilidade, prêmio de risco, sentimento de mercado. Tradução honesta: você vai pagar mais porque políticos que você nunca elegeu, em países que você mal sabe localizar no mapa, tomaram decisões que nenhuma assembleia europeia aprovou. E o termo correto para isso não é geopolítica. É confisco indireto financiado por medo.

Vale lembrar como a Europa chegou aqui. Foi a mesma elite tecnocrática que durante vinte anos desmontou a base nuclear francesa, fechou usinas a carvão alemãs em nome de uma transição apressada, condenou a exploração de gás de xisto no próprio continente, e amarrou a sobrevivência industrial do bloco ao gasoduto russo primeiro e ao GNL americano depois. Cada uma dessas decisões foi vendida como sabedoria iluminada de planejadores que sabiam mais que o mercado. Cada uma delas reduziu a margem de manobra do continente. Hoje, basta um foguete no Estreito de Ormuz, uma negociação travada em Genebra, e a fatura mensal do padeiro de Nápoles dispara. Isso não é o destino agindo. É a colheita do que foi plantado.

Siga o dinheiro e fica mais claro ainda. Cada centavo de alta no TTF se traduz em lucro extraordinário para um conjunto bem identificável de produtores americanos de GNL, operadores de terminais, traders de energia em Londres e Genebra, e fundos soberanos do Golfo que vendem hidrocarboneto a preço de jóia enquanto o resto do mundo paga preço de remédio. Não há conspiração nisso, há incentivo. O sistema atual recompensa quem se beneficia da instabilidade alheia e pune quem produz em ambiente disciplinado. Enquanto isso, o discurso oficial em Bruxelas continua tratando o problema como se fosse uma fatalidade climática, e não a consequência direta de escolhas energéticas tomadas com base em ideologia e não em aritmética.

O mais cômico, se é que cabe humor na desgraça alheia, é a expectativa quase mística de que um acordo entre Washington e Teerã vai estabilizar tudo. Como se a paz fosse um pacote para download, assinado em hotel suíço, capaz de reverter décadas de dependência energética construída por quem deveria ter sabido melhor. A verdade incômoda é que mesmo um acordo, se sair, apenas adia a próxima crise. A causa estrutural da vulnerabilidade europeia não está em Teerã, está em Berlim, em Bruxelas, em Paris, nas decisões domésticas que transformaram um continente rico em energia em um continente refém da geopolítica alheia.

O leitor que ainda acredita que o Estado moderno é um árbitro neutro do mercado deveria observar este episódio com atenção cirúrgica. Não há nada de natural na curva ascendente do TTF. Cada degrau de alta é o resultado mensurável de uma cadeia de decisões políticas, regulatórias e diplomáticas que poderiam ter sido diferentes. Foram tomadas dessa forma porque havia gente interessada em que fossem tomadas dessa forma. Quando o aposentado de Düsseldorf cortar o aquecimento neste inverno, lembre-se: ninguém o obrigou a depender de gás importado em troca de promessas verdes. Alguém escolheu por ele. E essa pessoa não vai pagar a conta.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.