A European Green Transition, uma dessas empresas que carregam o adjetivo virtuoso já no nome para que ninguém ouse questionar o conteúdo, anunciou a publicação de seu relatório anual e marcou data para a assembleia geral. O fato, em si, seria burocrático e enfadonho, daqueles que só interessam a acionistas e contadores. Mas é justamente nesse tipo de comunicado seco que se esconde a engrenagem mais bem azeitada do capitalismo de compadrio contemporâneo, aquele em que empresas privadas vivem de favores públicos enquanto fingem operar em mercado livre.

Pense bem no que significa, na prática, uma empresa cujo modelo de negócio depende, do primeiro ao último parágrafo, da continuidade de uma agenda regulatória imposta de cima para baixo. Não é o consumidor que escolhe transição verde no caixa do supermercado. É o burocrata em Bruxelas que decreta meta, fixa prazo, distribui subsídio, proíbe concorrente, e cria, do nada, um mercado cativo para quem souber navegar o cipoal de incentivos. Quando o relatório anual sai bonito, ninguém pergunta de onde veio a receita. Veio do contribuinte europeu que pagou imposto, que pagou conta de luz inflada, que pagou combustível taxado, e que financiou involuntariamente a festa.

O truque é sempre o mesmo, e tem séculos de história. Crie uma emergência moral, vista-a com roupagem científica, exija ação imediata, e em seguida indique quais empresas devem ser premiadas com contratos, isenções e mandatos compulsórios. No século XVII chamava-se monopólio real concedido por carta régia. No século XXI chama-se transição energética. A mecânica é idêntica: alguém ganha porque alguém perdeu, e o que se perde nunca aparece no relatório anual, porque o que se perde são empregos que não nasceram, investimentos que foram desviados, energia que ficou mais cara para a dona de casa e para o pequeno empresário que não tem lobista em Bruxelas.

O mais cômico é a solenidade da assembleia geral. Acionistas se reúnem, aprovam contas, batem palmas para a diretoria, e celebram resultados que só existem porque o mercado foi previamente cercado por lei. É como aplaudir o desempenho atlético de um corredor que correu sozinho na pista depois que os adversários foram impedidos de entrar. Há mérito? Há gestão? Talvez. Mas a métrica honesta exigiria comparar o resultado com o que aconteceria num mundo sem o cabo de aço regulatório que segura a empresa em pé. Esse exercício, claro, ninguém faz, porque o resultado seria embaraçoso.

Quer dizer, o cidadão comum vê manchete sobre relatório anual de empresa verde e pensa que se trata de inovação, de progresso, de gente competente fazendo coisa boa pelo planeta. Não percebe que está olhando para o espelho da própria conta de luz, da própria gasolina cara, do próprio imposto que cresceu para bancar subsídio que ele nunca pediu. A riqueza não está sendo criada ali, está sendo transferida. E transferência forçada de riqueza tem nome antigo na história das civilizações, um nome que os relatórios anuais cuidadosamente evitam.

Olha, enquanto o circo do clima continuar pagando bem, vai haver fila de empresas dispostas a colar a palavra "green" no nome e disputar lugar à mesa do banquete. O problema não é a empresa, que apenas responde aos incentivos que existem. O problema é o arranjo que criou os incentivos, e o silêncio cúmplice de quem deveria denunciar que rei nenhum, por mais verde que se pinte, anda vestido. O contribuinte é o único adulto na sala, e ninguém o convidou para a assembleia.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.