Friedrich Merz aparece nos jornais com aquele ar de gerente regional que descobriu na segunda-feira de manhã que a matriz vai fechar a filial. Apático, queixoso, sem rumo. E o sintoma não é pessoal, é geracional. O projeto político que ele encarna, aquela ideia de que dá para reengenheirar uma economia continental a partir de planilhas verdes elaboradas em Bruxelas, está implodindo na frente dele em tempo real. A indústria alemã, que durante setenta anos foi a coluna vertebral do continente, está sendo desossada em câmera lenta. BASF migra para a China e para o Texas. Volkswagen fecha plantas pela primeira vez na história. ThyssenKrupp corta aço como quem corta papel. E ninguém em Berlim parece capaz de pronunciar a frase óbvia, a saber, que energia cara mata indústria, e que a conta da fantasia energética chegou.

Olha, o roteiro era previsível desde o primeiro dia. Quando você decide, por decreto moral, abandonar a energia nuclear, fechar usinas a carvão antes de ter substituto e atrelar o crescimento industrial à boa vontade meteorológica de turbinas eólicas, o resultado não pode ser outro. A indústria química, a metalúrgica, a automotiva, todas dependem de energia barata e previsível na mesma proporção em que um peixe depende de água. Tire a água e o peixe morre. Não é castigo divino, é física. Mas os burocratas que desenharam essa engenharia social acharam que conseguiriam dobrar a termodinâmica com diretivas, taxonomias e relatórios ESG. Conseguiram apenas exportar empregos, capital e know-how para jurisdições que ainda lembram que riqueza se produz queimando alguma coisa.

Do outro lado do Atlântico, sem alarde, sem cúpulas climáticas, sem discursos messiânicos sobre o destino do planeta, está acontecendo algo que a imprensa europeia se recusa a noticiar com a seriedade devida. Os Estados Unidos vivem o maior boom de investimento industrial privado em quatro décadas. Fábricas de semicondutores no Arizona, plantas de baterias no Tennessee, refinarias expandindo na costa do Golfo, data centers brotando no Texas como cogumelos depois da chuva. Capital privado, gás natural barato graças ao xisto que os ambientalistas tentaram proibir, regulação estadual competitiva e uma classe empresarial que ainda acredita que produzir é virtude, não pecado. O contraste é tão brutal que beira o cômico, se não fosse trágico para quem vive em Hamburgo ou Stuttgart.

Quer dizer, siga o dinheiro e a história se conta sozinha. Onde o capital está indo? Para onde o ambiente é hostil a quem produz, ou para onde ainda se pode levantar um galpão sem precisar de cinquenta e três licenças e do aval de um sociólogo certificado em justiça intergeracional? A resposta não está em nenhum relatório do Fórum Econômico Mundial, está nos manifestos de carga dos portos de Roterdã e de Houston. Um esvazia, o outro transborda. Um exporta desemprego disfarçado de virtude moral, o outro importa engenheiros e máquinas. Quem mata uma indústria do tamanho da alemã não comete um acidente, comete uma escolha. E escolhas têm consequências, mesmo quando os escolhedores se acham imunes a elas.

O mais cruel desse processo é que ninguém vai responder por ele. Os ministros que decretaram o suicídio energético estarão aposentados em conselhos consultivos de ONGs bem financiadas quando o desemprego industrial alemão bater dois dígitos. Os comissários europeus que assinaram cada nova regulação climática estarão palestrando em Davos sobre resiliência quando a Renânia parecer o Rust Belt americano dos anos oitenta. A conta sempre fica para o operário de quarenta e cinco anos que descobre que sua especialização não vale mais nada, para a cidade pequena cuja única fábrica fechou, para a geração de jovens que herda um continente envelhecido, desindustrializado e moralmente exausto. A Europa está aprendendo, da pior maneira possível, que virtude declarada não substitui produtividade real.

E talvez esteja aí a lição que ninguém quer ouvir. Civilização não se sustenta com sermões, se sustenta com aço, energia, alimento e gente disposta a trabalhar sem pedir permissão poética para existir. Quando uma elite decide que produzir é vergonhoso e que importar é elegante, ela está cavando a cova da própria sociedade com pá de ouro. O continente que inventou a Revolução Industrial está terceirizando sua indústria para depois reclamar de dependência geopolítica. Não é tragédia grega, é farsa burocrática. E a América, sem fazer estardalhaço, vai recolhendo os cacos, contratando os engenheiros e ligando as turbinas. No fim, vence sempre quem entende que riqueza não brota de decreto, brota de trabalho que ninguém proibiu.

Com informações da ZeroHedge. A análise e opinião são do O Algoz.