A EverCommerce, plataforma de software vertical que atende pequenas e médias empresas de serviços nos Estados Unidos, fechou o primeiro trimestre de 2026 batendo as expectativas dos analistas de Wall Street, e fez isso pelo motivo mais constrangedor possível para a turma do regulamento, ou seja, investiu pesado em inteligência artificial e colheu margem. Receita acima do esperado, EBITDA ajustado em alta, fluxo de caixa operacional turbinado. Tudo isso oferecendo ferramentas de IA para encanador, eletricista, salão de beleza, clínica veterinária, exatamente o tipo de cliente que os profetas da catástrofe juram que será "esmagado pela tecnologia".
Repare na contradição deliciosa. Há meses ouvimos, em conferências patrocinadas com dinheiro público, que a IA vai destruir empregos, concentrar renda, exterminar o pequeno empresário. A solução proposta é sempre a mesma receita requentada, taxar, regular, criar conselho consultivo, exigir licença, proteger o "trabalhador vulnerável" com mais um carimbo. Enquanto isso, no mundo real, uma empresa de capital aberto distribui ferramentas de IA para o dono da oficina mecânica conseguir agendar cliente, emitir nota, controlar estoque e cobrar inadimplente sem precisar contratar três funcionários administrativos. Quem foi protegido pela ausência do regulador? O próprio pequeno empresário que o regulador jura querer salvar.
Siga o dinheiro e a fotografia fica ainda mais clara. Os clientes da EverCommerce são donos de negócio que nunca tiveram acesso a software corporativo de verdade, gente que durante décadas pagou caro por sistemas mal feitos porque a barreira de entrada era proibitiva. A IA derrubou esse custo. O capital privado, arriscando capital privado, financiou a pesquisa, bancou os engenheiros, construiu a infraestrutura de nuvem e entregou ao mercado um produto que o sujeito do interior do Texas usa no celular pagando assinatura mensal. Nada disso saiu de gabinete ministerial, de plano quinquenal, de fundo soberano de tecnologia, de comitê tripartite com representação setorial. Saiu de empreendedor com pele em jogo respondendo a sinais de preço.
O contraste com a tragédia tupiniquim é ofensivo. Aqui, debate-se taxação de algoritmo, royalty sobre treinamento de modelo, marco regulatório da IA com cento e tantos artigos, agência reguladora nova, e a santíssima trindade do atraso, ou seja, reserva de mercado, conteúdo nacional e licenciamento prévio. Cada uma dessas medidas, vendida como "proteção", é na prática uma escada de barreiras que o pequeno empresário brasileiro nunca conseguirá subir. Quem sobe? O conglomerado que tem departamento jurídico, lobista em Brasília e advogado especializado em compliance regulatório. A regulação, vendida como freio à concentração, é a maior fábrica de concentração que a economia moderna já conheceu.
Tem ainda o detalhe ético que ninguém quer encarar. Quando o Estado decide, em nome do trabalhador, qual tecnologia pode ou não pode ser adotada, ele está decidindo no lugar do indivíduo o que esse indivíduo deve consumir, produzir e oferecer. É uma forma sofisticada de tutela, daquele tipo que não algema, apenas formula, regulamenta, condiciona, autoriza. O sujeito acorda um dia e descobre que para usar uma ferramenta que custa quinze dólares por mês precisa de parecer técnico, certificação, registro em órgão competente. A liberdade econômica vai morrendo em silêncio, sufocada por tinta de carimbo, e quando o cidadão se dá conta já não tem mais sobre o que decidir.
O resultado da EverCommerce é, no fundo, um pequeno relatório de campo sobre como a riqueza realmente nasce. Não nasce de plano, nasce de aposta. Não nasce de proteção, nasce de competição. Não nasce de subsídio, nasce de capital privado disposto a perder se errar. Toda vez que um trimestre como esse vem à tona, a fila dos que pedem regulação preventiva fica um pouco mais ridícula, e a fila dos que produzem valor fica um pouco mais comprida. Resta saber de qual fila o Brasil quer participar nos próximos dez anos, porque escolher as duas, como sempre tentamos, é a forma mais cara de não escolher nada.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.