A notícia veio embrulhada no papel de presente habitual da imprensa financeira. A Evercore ISI elevou o preço-alvo das ações da Ally Financial, o resultado trimestral foi "acima do esperado", os analistas bateram palmas, o ticker subiu, e todo mundo fingiu que isso significa alguma coisa sobre a saúde real da economia americana. Quer dizer, significa mesmo, só que o oposto do que a manchete sugere. A Ally é, antes de tudo, a maior financeira de automóveis dos Estados Unidos, herdeira direta daquela GMAC que quase afundou junto com a General Motors em 2008 e precisou de resgate do contribuinte para continuar existindo. É este o "case de sucesso" que Wall Street descobriu de novo.

Olha, o negócio da Ally consiste basicamente em emprestar dinheiro para americanos comprarem carros que eles não conseguiriam comprar à vista, cobrando taxas que hoje flertam com a faixa dos dois dígitos, e rezando para que a inadimplência não exploda antes do próximo balanço. O lucro do trimestre vem de um truque contábil conhecido: provisões para perdas foram ajustadas, a margem de juros líquida se expandiu porque a captação custa menos que os empréstimos concedidos a consumidores cada vez mais endividados, e pronto, temos um trimestre "sólido". Ninguém na mesa do analista parece disposto a perguntar o que acontece quando o desemprego subir meio ponto percentual ou quando o carro usado, que serve de garantia, continuar desvalorizando no ritmo atual.

Me diz uma coisa, de onde vem a matéria-prima deste modelo? Vem do dinheiro barato fabricado pelo Federal Reserve ao longo de uma década inteira de juros próximos de zero, que inflou artificialmente o preço dos carros, empurrou consumidores para prazos absurdos de setenta e dois e oitenta e quatro meses, e criou um mercado inteiro de tomadores subprime que jamais existiria numa economia com preços honestos. A Ally não é uma vítima deste arranjo, é uma beneficiária direta. Cada ponto-base que o banco central manipulou para baixo virou margem de lucro para quem opera nas bordas do crédito. E cada correção que o mercado tentar fazer agora vai ser interpretada como "crise" a ser resolvida com mais intervenção.

A parte que ninguém discute na celebração do preço-alvo é a pilha de carteiras automotivas subprime que as fintechs e os bancos médios estão empacotando em títulos e vendendo adiante, repetindo em menor escala exatamente a coreografia que antecedeu 2008 com o mercado imobiliário. A delinquência em empréstimos automotivos nos Estados Unidos já está nos maiores níveis em décadas, as recuperações de veículos subiram, e mesmo assim o papel da Ally ganha upgrade. Isto não é análise fundamentalista, isto é torcida organizada com planilha. O analista sabe que, se a coisa desandar, o Tesouro americano vai aparecer de novo com um pacote de socorro, como apareceu da última vez, e o upside fica privatizado enquanto o downside é repartido com quem paga imposto.

E aqui está o ponto que a euforia do mercado esconde. O lucro contábil de um banco de financiamento automotivo, num ambiente de consumidor estrangulado, dívida de cartão recorde e poupança pessoal derretida, não é sinal de vigor econômico. É sinal de que o sistema ainda consegue espremer mais suco de uma laranja que já foi passada pelo espremedor três vezes. Os resultados "sólidos" de hoje são a hipoteca do calote de amanhã, e quem vai descobrir isso primeiro é o varejista que depender da renda disponível destes mesmos consumidores quando a prestação do carro virar prioridade sobre a geladeira cheia.

Celebrar upgrade de preço-alvo de uma financeira de subprime no final de um ciclo de crédito é como elogiar a pintura do convés do Titanic na noite de 14 de abril. Os números fecham, o garçom serve champanhe, os analistas sorriem para a foto, e lá embaixo, invisível no papel de apresentação, o iceberg continua exatamente onde sempre esteve. A conta desta festa não vai chegar para o CEO da Ally nem para o analista da Evercore. Vai chegar, como sempre chega, para o sujeito que acordou cedo, pagou seus impostos e nunca foi convidado para a mesa onde as decisões foram tomadas.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.