A Evercore ISI, uma dessas casas que vivem de vender opinião embrulhada em PDF, iniciou cobertura da Versigent com classificação Outperform, e o noticiário financeiro repercute a novidade como se fosse revelação divina. Olha, toda vez que um banco grande inaugura cobertura de uma ação com recomendação de compra, o cidadão atento deveria fazer a mesma pergunta que se faz diante de um político sorridente em ano eleitoral: o que você quer de mim, exatamente?

O jogo é velho e conhecido por quem já viu o filme mais de uma vez. Mesas de operação acumulam posição discretamente, o departamento de research solta o relatório com tese bem costurada, os terminais Bloomberg distribuem a notícia para milhares de gestores que precisam justificar alguma coisa ao comitê na segunda de manhã, e o varejo, sempre o varejo, compra na alta achando que está surfando tendência quando está apenas fornecendo liquidez para quem entrou antes. A palavra técnica para isso é mercado eficiente. A palavra honesta é outra.

Quer dizer, não se trata de dizer que a Versigent é boa ou ruim como empresa, essa análise exige olhar balanço, fluxo de caixa, margem, endividamento, vantagem competitiva real, nada disso cabe num selo de quatro sílabas carimbado por analista que provavelmente nunca pisou numa fábrica da companhia que está recomendando. O selo Outperform não é informação sobre a empresa, é sinalização de uma instituição para outras instituições dentro de um ecossistema que se retroalimenta. O preço sobe porque a recomendação saiu, não porque alguma coisa de fundamento mudou entre ontem e hoje.

E aqui está o que não se vê. Para cada relatório que vira manchete, existem dezenas de empresas pequenas, lucrativas, bem administradas, que jamais terão cobertura porque não pagam banca de colocação, não contratam os mesmos bancos para emissão de dívida, não alimentam o circuito de taxas que sustenta o departamento de research. O capital, que deveria fluir para onde há valor real, flui para onde há narrativa patrocinada. Chama-se isso de alocação eficiente de recursos nos livros didáticos; quem vive de operar sabe que é outra coisa bem diferente.

O investidor brasileiro, vale lembrar, chega nessa festa sempre atrasado e sempre com o bolso cheio de ilusão. Lê a manchete traduzida, converte o sonho em dólar, paga corretagem, paga spread, paga imposto sobre ganho que na maior parte das vezes é ganho inflacionário e não ganho real, e no fim da feira descobre que o Outperform era para o fundo que já estava posicionado, não para ele. A lição, que ninguém aprende porque ninguém quer aprender, é que recomendação pública de banco grande raramente é ponto de entrada; é ponto de saída disfarçado de convite.

O mercado de capitais funciona, e funciona bem, quando cumpre seu papel de alocar poupança em empreendimento produtivo. Quando vira teatro de sinais onde quem produz o sinal está do outro lado da operação, deixa de ser mercado e vira cassino com regulamentação. A diferença entre o cassino e este circuito é que no cassino você sabe que a casa sempre ganha.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.