A notícia é quase poética na sua circularidade. Um banco de investimento, daqueles que vivem de cobrar comissão para empurrar papel, reitera a recomendação de comprar a ação mais óbvia do planeta porque o produto mais vendido do planeta continua vendendo. É como anunciar, com ar grave, que o sol nasceu no leste. Mas o ritual importa, porque é justamente nessa repetição litúrgica que o jogo se sustenta: relatório sai, manchete se forma, gestor de fundo passivo respira aliviado, e a engrenagem que cobra taxa de administração sobre o seu plano de previdência segue girando sem que ninguém precise pensar.

O leitor desavisado lê "força do iPhone" e imagina inovação, design, gênio empresarial. Tudo isso existe, é verdade, e seria desonesto fingir que a empresa de Cupertino é uma fraude. O ponto é outro. O que sustenta hoje o múltiplo absurdo da ação não é mais o aparelho que vibra no seu bolso, é o ecossistema de aluguel que ela construiu por cima dele. Comissão de 30% na loja de aplicativos, assinatura recorrente de serviços, contrato de exclusividade com o buscador que paga bilhões por ano para continuar sendo o padrão. Isso não é capitalismo de risco, é renda de pedágio. E pedágio, como qualquer um que já cruzou a Régis Bittencourt sabe, é o sonho molhado de quem detesta competir.

Aqui mora o detalhe que os relatórios não contam. A "força do iPhone" só permanece sendo força porque toda a regulação global protege, na prática, o duopólio com o Android. Os reguladores europeus fingem indignação, abrem processo, multam de vez em quando para encher o cofre, e no fim do dia a estrutura segue intacta. No Brasil, então, a discussão sequer existe; o consumidor paga o aparelho mais caro do mundo, em parcelas que viraram tradição familiar, e ainda agradece. Quando você ouvir alguém dizer que o livre mercado falhou, peça para essa pessoa apontar onde, exatamente, está o livre mercado. Não está no aparelho que tem bateria selada por decreto interno e carregador vendido à parte por dez anos seguidos.

Há também o que o relatório do banco escolhe não ver. A força do iPhone se apoia em uma cadeia produtiva que depende de Taiwan continuar existindo como entidade autônoma, da China continuar fingindo que tolera a entidade autônoma, e do dólar continuar sendo aceito como meio de pagamento universal apesar da impressora rodar dia e noite em Washington. Tire qualquer uma dessas três pernas e o múltiplo de trinta vezes lucro vira pó antes do café da manhã. O analista que escreve "reiteramos compra" não está fazendo análise, está fazendo prece. E prece, convenhamos, é melhor na igreja do que no terminal.

O mais cômico é o efeito disso na cabeça do investidor brasileiro médio, que olha para a recomendação importada e conclui que precisa colocar tudo em ações lá fora porque aqui não dá. Não dá mesmo, ninguém discute, mas a alternativa que lhe vendem é apostar que o império mantém o privilégio de cobrar pedágio sobre o resto do mundo por mais uma década. Pode ser que mantenha. Também pode ser que não. O que é certo é que ninguém, nem o analista da Evercore, nem o gestor que repete o relatório, nem o jornalista que traduz a manchete, está pagando do próprio bolso para descobrir. Quem paga é você, sempre você, ou na taxa do fundo, ou no preço do aparelho, ou no imposto que financia a embaixada que negocia o acordo comercial.

No fim, a notícia não é sobre a Apple. É sobre o conforto preguiçoso de um sistema financeiro que aprendeu a confundir capitalismo com capitalismo de compadrio sofisticado, e que treinou três gerações de poupadores a chamar isso de investimento. Enquanto o iPhone vender, o ritual continua. Quando parar de vender, vão descobrir, com espanto fingido, que o rei estava com a roupa montada por departamento de marketing. Até lá, compre o relatório, compre a ação, e compre principalmente a ideia de que pensar é desnecessário. É o produto mais lucrativo que Wall Street já vendeu.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.