Aftab Dana, vice-presidente executivo da Exelixis, despejou no mercado US$ 2,19 milhões em ações da farmacêutica que ele próprio ajuda a dirigir. O fato, comunicado nos termos burocráticos da SEC para parecer rotina contábil, é qualquer coisa menos rotina. Quando alguém que senta na cabeceira da mesa decide trocar papel por dinheiro vivo na ordem dos milhões, o sinal que envia não está no press release, está na transação. E o sinal raramente é otimista.
O mercado financeiro tem uma assimetria informacional que nenhuma comissão de valores mobiliários do mundo conseguiu corrigir, por mais relatórios obrigatórios que invente. Quem está dentro da empresa conhece o pipeline de medicamentos, sabe quais ensaios clínicos estão patinando, viu a planilha de fluxo de caixa do próximo trimestre e ouviu o que o conselho discute a portas fechadas. O acionista pessoa física, esse, lê o release de resultados três meses depois e ainda acha que está sendo esperto por acompanhar o Investing.com no café da manhã.
Os defensores do arranjo dirão que executivos vendem ações por mil motivos legítimos, diversificação de patrimônio, planejamento sucessório, compra de mansão em Aspen, divórcio caro. Tudo verdade. Mas quando se soma o volume agregado dessas vendas internas no setor de biotecnologia americano e se compara com o desempenho subsequente dos papéis, o padrão é constrangedor. Quem está dentro vende na alta. Quem está fora compra na alta achando que é a próxima alta. O resto é matemática.
Há também a questão das stock options, esse mecanismo engenhoso pelo qual o executivo é remunerado em papel da própria empresa supostamente para alinhar seus interesses com os do acionista. Belíssimo na teoria. Na prática, vira uma máquina de transferência de riqueza do capital paciente para o capital impaciente. O sujeito recebe as opções a custo zero, espera a ação subir por mérito coletivo da companhia, exerce, vende, e converte em dinheiro que vai para imóvel, renda fixa, qualquer coisa menos a própria empresa que ele jura defender em reunião de conselho.
O que ninguém diz nessas notícias frias da SEC é que o sistema inteiro de governança corporativa moderna foi desenhado para legitimar exatamente esse tipo de movimentação. A camada regulatória existe não para impedir o insider trading material, existe para fornecer cobertura legal a quem o pratica dentro das regras. Cumpre-se o protocolo, comunica-se na janela permitida, e pronto, o varejo que se vire para interpretar o sinal. É legal, é declarado, é transparente. E é exatamente por isso que funciona tão bem para quem está dentro.
A lição que esta venda de US$ 2,19 milhões oferece não está no valor, é trocado mais que isso na bolsa de Nova York antes do segundo café. A lição está no método. Toda vez que você ler que um executivo de alto escalão vendeu uma fatia relevante das próprias ações, faça a única pergunta que importa: o que ele sabe que eu ainda não sei? A resposta honesta é, quase sempre, tudo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.