Steven Borges, vice-presidente executivo da Jabil, vendeu 7.000 ações a US$ 290 cada uma no dia 8 de abril, embolsando pouco mais de US$ 2 milhões. No mesmo dia, o CEO Michael Dastoor se desfez de 9.467 ações, levando para casa US$ 2,7 milhões. Nenhum insider da Jabil comprou uma única ação no último ano. Nenhum. Zero. E o mercado, como de costume, olhou para o lado e fingiu que não viu.

Olha, os números da Jabil estão esplêndidos. Receita de US$ 8,28 bilhões no último trimestre, 23% acima do ano anterior. Lucro por ação ajustado de US$ 2,69, acima de todas as expectativas. A empresa surfando a onda de infraestrutura de inteligência artificial, data centers, networking, o segmento de infraestrutura inteligente crescendo 52% em um trimestre. O guidance anual foi elevado para US$ 34 bilhões em receita e US$ 12,25 por ação. Quer dizer, se você olha o balanço, é uma empresa no auge da forma. E é exatamente por isso que a venda dos executivos merece atenção. Quando alguém que tem acesso privilegiado às entranhas de uma corporação decide realizar lucro no pico, enquanto o investidor comum está deslumbrado com o rally de 125% em doze meses, o que está sendo comunicado não é otimismo.

Me diz uma coisa, se você fosse dono de um restaurante e soubesse que a cozinha está impecável, o movimento é recorde e o mês seguinte promete ser ainda melhor, você venderia sua parte? A resposta óbvia é não. A menos que você saiba algo que os clientes na fila não sabem. Ou a menos que você desconfie que o movimento recorde é insustentável, que a fila está ali por moda e não por fidelidade. Os US$ 15 milhões em vendas de insiders no último trimestre, sem uma única compra no sentido contrário, não são prova de nada. Mas são um sinal que o investidor inteligente não ignora.

O mercado de ações americano vive um daqueles momentos em que a euforia substitui a análise. Tudo que tem "IA" no prospecto sobe. Tudo que promete crescimento em data centers atrai capital como mel atrai mosca. E a Jabil, competentíssima que é na manufatura terceirizada, está colhendo frutos legítimos dessa demanda. Mas existe uma diferença entre o valor real que uma empresa gera e o preço que o mercado atribui quando está embriagado de otimismo. Os executivos conhecem essa diferença melhor que ninguém, porque vivem dentro do negócio, veem os contratos, sabem quais clientes estão acelerando e quais estão começando a revisar pedidos. Quando todos eles vendem ao mesmo tempo, estão fazendo exatamente o que qualquer pessoa racional faz quando o preço de algo que ela possui ultrapassa o que ela acredita valer: realiza o lucro e deixa o risco para quem chegou depois.

Os analistas de banco vão dizer que é "rotina", que executivos vendem ações regularmente como parte de planos de compensação pré-programados, que os volumes são pequenos frente às participações totais. Tudo verdade. Tudo irrelevante. Porque a pergunta que importa não é "quanto venderam", mas "por que nenhum comprou". Se a Jabil é a máquina de dinheiro que os resultados sugerem, se o futuro é tão radiante quanto o guidance promete, onde está o executivo que bota a mão no bolso e compra ação com dinheiro próprio, na mesa, de frente para todo mundo? Não existe. E a ausência é a mensagem.

No fim das contas, o pequeno investidor fica com a narrativa, e o executivo fica com o dinheiro. Essa é a divisão do trabalho que Wall Street aperfeiçoou ao longo de um século e que nenhum regulador jamais conseguiu corrigir, pela simples razão de que o regulador bebe no mesmo bar que o regulado. O insider selling da Jabil não é escândalo, não é fraude, não é crime. É apenas a mais antiga e mais honesta das confissões: quem sabe mais, arrisca menos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.