O editor do Windows Central, Jez Corden, soltou no podcast The Xbox Two, na última segunda-feira, que existem "grandes discussões internas" sobre a estratégia de exclusividade do Xbox. Traduzindo do corporativês para o português dos mortais: alguém dentro da Microsoft finalmente olhou para os números de vendas, engoliu o orgulho e admitiu que a política de jogar pérolas aos porcos não funcionou. Quem diria.
A história do Xbox nos últimos anos é um estudo de caso perfeito sobre o que acontece quando executivos de tecnologia resolvem aplicar teoria de plataforma aberta num mercado que funciona por lealdade tribal. Consoles não são sistemas operacionais. Quem compra um videogame não quer "ecossistema", quer aquele jogo que só roda na máquina dele, quer a sensação de ter feito a escolha certa, quer pertencer a um time. Os japoneses entenderam isso desde o primeiro Famicom. A Microsoft, com toda a sua inteligência artificial e seus bilhões em caixa, precisou de uma década e de uma hemorragia de market share para chegar à mesma conclusão que qualquer moleque de 14 anos num fórum de games já sabia.
O mais fascinante nessa saga é a arrogância silenciosa por trás da decisão original. Quando o Xbox começou a liberar seus exclusivos para PlayStation e Nintendo, a narrativa oficial era de generosidade, de "jogos para todos", de derrubar barreiras. Na prática, era uma aposta de que o Game Pass, o serviço de assinatura, substituiria a necessidade de hardware dedicado. Era a mesma lógica de quem acha que pode trocar a fortaleza por uma barraca de camping desde que tenha Wi-Fi. O problema é que, enquanto a Microsoft brincava de filantropia digital, a Sony vendia PlayStation 5 como se fosse ouro em barra, justamente porque tinha Naughty Dog, Santa Monica Studio e uma biblioteca de exclusivos que fazia qualquer jogador salivar. Não existe generosidade no mercado de consoles. Existe estratégia ou existe capitulação.
Há uma lição antiga aqui que a indústria de tecnologia teima em ignorar. Toda vez que alguém tenta abolir a competição real em nome de uma utopia de acesso universal, o resultado é mediocridade generalizada. A exclusividade não é um defeito do mercado de games; é o motor dele. Foi a guerra entre Sega e Nintendo nos anos 90 que produziu os melhores jogos daquela geração. Foi a rivalidade PlayStation e Xbox no início dos anos 2000 que empurrou a qualidade gráfica para patamares impensáveis. Quando um dos lados resolve sair da briga e virar "plataforma de serviços", o ecossistema inteiro perde tensão criativa. O Xbox não perdeu a guerra dos consoles por falta de dinheiro ou talento. Perdeu porque seus estrategistas confundiram rendição com inovação.
Se a Microsoft realmente retomar a política de exclusivos, e essa é uma condicional do tamanho de um Halo, o caminho de volta será longo e doloroso. Confiança de consumidor não se reconstrói com um comunicado de imprensa. Os jogadores que migraram para PlayStation ou Nintendo já fizeram seus investimentos, já compraram suas bibliotecas digitais, já construíram suas listas de amigos nas outras plataformas. Reconquistar esse público vai exigir não apenas exclusivos, mas exclusivos que justifiquem a existência do hardware, jogos que só façam sentido naquele ecossistema. Vai exigir, em outras palavras, o tipo de visão que transforma uma caixa de plástico e silício em objeto de desejo. Isso não se compra com aquisições bilionárias como a da Activision Blizzard. Isso se constrói com obsessão pelo produto. E obsessão é a única coisa que dinheiro não compra.
Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.