Um executivo da Hinge Health, a queridinha do setor de saúde digital que abriu capital recentemente com aquele auê de costume, acaba de despejar US$ 3,28 milhões em ações da própria empresa no mercado. Não é pecado vender. Pecado é a plateia continuar aplaudindo o show enquanto o protagonista corre para o estacionamento com a bilheteria debaixo do braço. A informação está lá, fria, num documento regulatório que ninguém lê, enquanto o noticiário financeiro repete as projeções otimistas de analistas que ganham comissão para repeti-las.

Quem manja de mercado sabe que o insider tem uma vantagem epistemológica que nenhum relatório de banco consegue replicar. Ele vê o caixa, vê o pipeline real de contratos, vê a margem se estreitando antes de qualquer trimestral confessar. Quando esse sujeito decide trocar papel por dinheiro vivo numa magnitude dessas, está enviando um sinal que vale mais do que mil teleconferências com investidores. A pergunta honesta não é se a venda é legal, é por que justo agora, justo nesse volume, justo depois de um IPO que prometeu revolucionar a fisioterapia digital.

O modelo de negócio da Hinge Health depende de algo que está ruindo silenciosamente, a disposição de planos de saúde corporativos americanos de pagar caro por aplicativos que substituem consultas presenciais. Com aperto monetário, recessão na engorda e RH cortando perks, esse tipo de contrato é dos primeiros a virar pó. Quem está dentro vê o funil de renovações encolhendo antes que o release otimista chegue ao terminal Bloomberg. E age conforme. O dinheiro, ao contrário do marketing, não mente.

Há ainda a velha alquimia das empresas de tecnologia em saúde, vender para o mercado a narrativa de inteligência artificial salvando vidas enquanto, no balanço, o que sustenta a operação são contratos B2B precificados na base do otimismo pré pandêmico. Quando a maré da liquidez fácil baixou, esse tipo de truque ficou exposto. Os fundadores e executivos que entraram cedo, com preço médio próximo de zero, têm todo incentivo do mundo para realizar lucro enquanto o varejo ainda compra a fantasia. É a transferência clássica de riqueza dos otários informados para os iniciados informados, com chancela legal e selo de governança corporativa.

O detalhe sórdido é que tudo isso acontece dentro das regras. O sujeito comunicou, esperou a janela, vendeu via plano programado, fez tudo certinho. A legalidade, contudo, não responde à pergunta moral nem à pergunta econômica. A pergunta moral é se você venderia a casa da sua mãe sabendo que o telhado está prestes a cair. A pergunta econômica é por que o pequeno investidor brasileiro, que volta e meia compra essas teses via BDR ou ETF setorial, está sempre do lado errado dessa equação. A resposta é a mesma desde sempre, ele compra história, eles vendem ação.

Olha, o mercado de capitais funciona quando há simetria de informação minimamente decente e quando os sinais dos insiders são lidos pelo que são, não pelo que o press release pede para que sejam. Cada vez que uma venda dessas passa batida, o mercado fica um pouquinho mais parecido com um cassino e um pouquinho menos com aquele mecanismo magnífico de alocação de capital que deveria ser. E o pior é que a CVM da vida, a SEC da vida, os reguladores em geral, vão continuar perseguindo o influencer que falou de cripto no Instagram enquanto o executivo de blazer azul marinho leva milhões para casa com sorriso de quem cumpriu a planilha.

Quando o comandante começa a vender seus salva-vidas, é hora de olhar duas vezes para o horizonte.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.