Olha que coisa curiosa. Um figurão do JPMorgan aparece nos terminais de notícia avisando, com aquela cara de quem revela o óbvio com ar de profeta, que o Federal Reserve provavelmente vai manter os juros parados até o fim do ano. O mercado finge surpresa, os analistas correm para reescrever planilhas, e os jornais econômicos brasileiros traduzem a notícia com aquele tom solene de quem comunica um decreto divino. Quer dizer, depois de uma década inteira imprimindo dólar como se papel-moeda crescesse em árvore, agora descobriram que a inflação é teimosa. Que novidade extraordinária.

Convém lembrar, porque a memória do mercado é curta como a de peixe-dourado, que essa mesma turma do banco central americano passou anos jurando que a inflação pós-pandemia seria transitória. Transitória. A palavra entrou para o panteão das mentiras técnicas ao lado de quintal coletivizado e plano econômico definitivo. Imprimiram trilhões, inundaram o sistema financeiro de liquidez artificial, financiaram gastança fiscal de proporções bíblicas, e depois ficaram surpresos quando o preço do ovo, do aluguel e do hambúrguer subiu ladeira acima. É como o sujeito que abre todas as torneiras da casa e depois se espanta com a conta de água.

Me diz uma coisa, quem é que ganha com juros artificialmente baixos e depois com juros artificialmente altos? Sempre os mesmos. Os bancos grandes que tomam dinheiro a custo zero da janela do Fed e emprestam ao varejo a juros de cartão. Os fundos que se alavancam em ativos inflados pela liquidez fácil. O governo americano que rola dívida de trinta e seis trilhões de dólares pagando juros que, mesmo nominalmente altos, são negativos quando ajustados pela inflação real, não a inflação maquiada do índice oficial. Siga o dinheiro e você sempre encontra os mesmos endereços em Wall Street e em Washington trocando favores enquanto o trabalhador da classe média vê seu salário derreter no supermercado.

O que não se vê nessa história toda é o estrago invisível. Cada ponto percentual de juros mantido por mais tempo é uma pequena empresa que não consegue refinanciar a dívida e fecha. É um casal jovem que adia o sonho da casa própria porque o financiamento ficou impagável. É o investimento produtivo de longo prazo que migra para a renda fixa, sufocando inovação. É a poupança do aposentado corroída pela inflação que nunca foi domada de verdade. Tudo isso não aparece nas manchetes porque o que se vê é o anúncio do banco central, o discurso do executivo do JPMorgan, o gráfico bonito no Bloomberg. O que não se vê fica enterrado nas vidas comuns que pagam silenciosamente o pato.

E o Brasil, claro, fica refém desse teatro monetário. Se o Fed segura juros, o Banco Central daqui também precisa segurar, senão o real desidrata e o capital especulativo migra. A Selic alta estrangula o crédito, a indústria definha, o governo Lula continua gastando como se não houvesse amanhã, e a conta vem na forma de dólar caro, gasolina cara, comida cara. Soberania monetária, no atual arranjo internacional, é fábula que se conta para criança dormir. Somos economia periférica reagindo aos espasmos do imperador do Norte, que por sua vez reage aos próprios pecados acumulados durante anos de irresponsabilidade.

O recado que esse executivo do JPMorgan deu, decifrado o economês, é simples e brutal. A festa acabou e a ressaca vai durar mais do que prometeram. Quem acreditou que a impressora de dinheiro era almoço grátis está descobrindo que existe sim conta no fim do banquete, e ela vem com juros compostos. A próxima crise já está sendo gestada nos balanços bancários, no mercado imobiliário comercial americano, nas dívidas soberanas inchadas. Não é questão de se, é questão de quando. E quando vier, prepare-se para ouvir os mesmos gênios que causaram o problema explicarem, com ar grave e voz pausada, que ninguém poderia ter previsto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.