A Exelixis abriu 2026 com receita crescendo 10% no primeiro trimestre, empurrada pelo cabozantinibe e pela expectativa em torno do zanzalintinib, a molécula que está reorganizando o tratamento de câncer colorretal metastático. Enquanto o capital privado americano financia ensaios de fase 3 em três frentes simultâneas, o paciente brasileiro de oncologia espera, em média, sete anos entre a aprovação da FDA e a chegada da mesma droga ao SUS. Sete anos. É o tempo que um filho leva para entrar e sair do ensino fundamental enquanto a mãe morre esperando o burocrata de Brasília carimbar uma bula que já foi traduzida em quarenta países.
O que se vê é a manchete bonita: receita crescente, pipeline robusto, ações sólidas. O que não se vê é a engenharia de incentivos que torna isso possível e a engenharia inversa que, no Brasil, torna isso impossível. A Exelixis não cresce porque é generosa, cresce porque opera num sistema onde quem acerta uma molécula contra o câncer ganha dinheiro de verdade, e quem erra perde dinheiro de verdade. Esse mecanismo grosseiro, brutal, quase indecente em sua simplicidade, é o que produz remédio. Comitê de ética, conselho consultivo e fundo de fomento estatal não produziram, em cinquenta anos, nem a aspirina.
Repare na estrutura do incentivo. O zanzalintinib custou centenas de milhões de dólares em pesquisa antes de gerar o primeiro centavo de receita. Nenhum planejador central, por mais doutorado que ostente, alocaria voluntariamente esse capital de risco. Foram acionistas, fundos, investidores anônimos espalhados pelo mundo, cada um decidindo com sua própria pele em jogo, que bancaram o tiro no escuro. Quando dá certo, a manada moral aparece para reclamar do preço. Quando dá errado, ninguém aparece para devolver o prejuízo a quem apostou. Essa é a parte que o colunista da Folha sempre esquece de explicar.
E aí entra o show de horrores tupiniquim. A Anvisa, criada para proteger o consumidor, virou ela própria a maior barreira sanitária entre o brasileiro doente e a medicina de fronteira. Cada mês de atraso regulatório é um cemitério estatístico que ninguém contabiliza, porque os mortos pela burocracia não aparecem em planilha, não dão entrevista, não fazem passeata. A vítima da regulação é sempre invisível, e é exatamente por isso que o regulador prospera. Ninguém é demitido por excesso de cautela; muitos são demitidos por aprovar rápido demais. O incentivo do burocrata é o oposto do incentivo do paciente, e o paciente é quem paga a conta com o próprio fígado.
Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. A indústria farmacêutica nacional, protegida por barreiras tarifárias, exigências de produção local e licenciamentos compulsórios travestidos de soberania sanitária, lucra com o atraso. O laboratório que copia a molécula cinco anos depois não precisa investir em pesquisa, só em lobby. O resultado é uma simbiose perversa entre o regulador, o produtor doméstico e o discurso de soberania, todos prosperando sobre o cadáver do paciente que morreu esperando. Chamam isso de política industrial. O nome correto é outro, mas a língua portuguesa já não é o que era.
O zanzalintinib chegará ao mercado americano antes do fim de 2027. Ao Brasil, se Deus quiser e o lobby permitir, em 2032. Nesse intervalo, dezenas de milhares de brasileiros morrerão de uma doença para a qual existirá tratamento eficaz a quatro mil quilômetros de distância. Não é falha de mercado. É exatamente o oposto: é o sucesso espetacular de um arranjo estatal que protege todo mundo, menos o doente. Mercado livre não mata paciente; planilha de Brasília mata.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.