A notícia veio embalada como oferta de Black Friday, daquelas que apelam para o medo de ficar de fora. A organização do Disrupt 2026 avisa, com letras garrafais, que as mesas de seis pés do salão de exposições estão se esgotando, e que o empreendedor descuidado corre o risco de assistir, da plateia, ao concorrente fechar negócios na sua frente. Dez mil tomadores de decisão, dizem eles. Visibilidade, tração, deals reais. O vocabulário de sempre, repetido com a fé inabalável de quem nunca duvidou de que a fórmula funcione.
Há algo de profundamente medieval nessas feiras. O sujeito paga para erguer a tenda, decora a mesa com totens iluminados, contrata uma moça simpática para distribuir adesivos e fica ali, de pé, oito horas por dia, esperando que algum mecenas de moletom passe e diga a palavra mágica. A diferença é que nas feiras de Champagne do século XIII se vendiam tecidos flamengos e especiarias do Oriente, coisas que existiam, que pesavam, que alimentavam ou vestiam alguém. Nas feiras de tecnologia contemporâneas se vende, na maioria esmagadora dos casos, a promessa de que aquele código mal escrito vai, um dia, talvez, eventualmente, gerar fluxo de caixa.
O modelo de negócios da própria TechCrunch, convém lembrar, não é vender produto. É vender acesso. Acesso à plateia, acesso aos investidores, acesso ao palco, acesso ao crachá colorido que separa o iniciado do peão. Cobra-se do startupeiro para que ele possa ser visto pelo investidor, cobra-se do investidor para que ele possa filtrar startupeiros, cobra-se do patrocinador para colar a logomarca em tudo. É uma economia circular onde a única coisa que circula com velocidade é o cheque que sai do bolso do empreendedor desesperado por validação.
O empreendedor de verdade, aquele que está construindo alguma coisa, raramente tem tempo para essas peregrinações. Está no galpão, no laboratório, no terminal, debugando às três da manhã, conversando com cliente real, ouvindo crítica que dói. A ferramenta que muda o mundo não nasce no salão de exposições com piso de carpete azul; nasce no porão, no quarto dos fundos, na garagem suja onde ninguém viu, ninguém aplaudiu, e o cheque do investidor só apareceu depois que o produto já funcionava. As maiores empresas de tecnologia do nosso tempo não foram descobertas em feira nenhuma. Foram descobertas porque construíram algo que as pessoas usaram.
Existe, claro, o argumento de que o networking compensa. Que o encontro casual no corredor pode mudar a trajetória da empresa. Pode. Também pode mudar a trajetória de quem joga na loteria. A questão é a relação entre esforço, custo e probabilidade. Pagar milhares de dólares por uma mesa de madeira para disputar a atenção de um investidor já cansado, no terceiro dia de evento, depois de mais sessenta pitches idênticos sobre IA generativa para qualquer coisa, é estatisticamente parecido com apostar na roleta. Só que a roleta, ao menos, é honesta sobre o que é.
O ecossistema brasileiro precisa olhar com ceticismo saudável para esse tipo de ritual importado. Não porque feira seja inútil em absoluto, mas porque a obsessão por aparecer em palco estrangeiro, com slide em inglês e jargão de Vale do Silício, drena energia que seria melhor empregada construindo cliente, receita e código que rode em produção. Quem precisa de feira para ser visto talvez ainda não tenha construído nada digno de ser visto. E quando construir, vai descobrir que os investidores aparecem sozinhos, sem precisar de mesa de seis pés.
Com informações da TechCrunch. A análise e opinião são do O Algoz.