Abril sempre foi o mês morno da pluma brasileira, aquela janela burocrática em que o produto antigo já saiu e o novo ainda não chegou ao porto. Pois é justamente neste abril, segundo a Anea, que o Brasil despachou volume recorde de algodão para fora, virando do avesso a sazonalidade que os manuais escreveram. Quem fez isso não foi nenhum programa federal, nenhum gabinete iluminado, nenhuma assessoria de planejamento estratégico. Foi gente acordando às quatro da manhã no oeste baiano e em Mato Grosso para colher, beneficiar, classificar e embarcar fibra que o mundo quer comprar.

Olha, há uma lição aqui que ninguém na Esplanada vai querer ouvir. O setor que mais cresce, mais exporta e mais gera divisas para o país é justamente aquele em que o Estado menos consegue meter a mão. O algodoeiro não depende de subsídio cruzado, não vive de tarifa protetora, não pede reserva de mercado. Ele compete com o americano, que recebe bilhões em pagamento direto do Farm Bill, e com o indiano, que tem mão de obra a preço de bagatela. E ainda assim ganha. Quer dizer, o produtor brasileiro venceu o protecionismo alheio sem precisar de protecionismo próprio, o que deveria envergonhar cada burocrata que defende "política industrial" como se fosse novidade salvadora.

Me diz uma coisa: por que será que esse mesmo Brasil que entrega algodão de classe mundial não consegue entregar uma escola pública decente, um hospital que funcione, uma estrada sem cratera? A resposta é desconfortável e precisa ser dita sem rodeios. Onde o preço opera livremente, onde o produtor responde ao consumidor lá fora e não ao caprichinho do ministro daqui, a coisa funciona. Onde o Estado planeja, decide, distribui e protege, a coisa apodrece. É a mesma terra, é o mesmo povo, é o mesmo CPF; muda apenas quem manda no jogo.

E há a questão silenciosa dos juros e do câmbio. O Brasil mantém uma das taxas reais mais altas do planeta porque o governo precisa rolar uma dívida que cresce mais rápido do que a receita de exportação consegue sustentar. O produtor de algodão financia a estrutura inteira, manda dólar para dentro, recolhe imposto em cada etapa, paga energia subsidiada para o consumidor urbano e ainda ouve do colunista de São Paulo que o agro é "atraso". O agro não é atraso; o agro é o último bolso que sobrou para a farra fiscal beber. Quando esse bolso secar, e ele vai secar se continuarem mexendo, descobriremos rapidamente que dólar não nasce em Brasília.

O recorde de abril é, no fundo, um recado em forma de planilha de embarque. Cada navio que sai de Santos ou de Itaqui carregando fibra é um voto silencioso contra o modelo que insiste em tratar o produtor como vaca leiteira do projeto de poder. Esses caminhões na BR-163 não estão pedindo audiência no Planalto, estão entregando resultado. E enquanto entregarem, o Brasil come, paga importação de remédio e finge que tem moeda. No dia em que a paciência do cerrado acabar, descobriremos que país nenhum sobrevive odiando quem o sustenta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.