Olha o roteiro. Em março, as exportações chinesas tropeçam, os analistas começam a sussurrar que talvez, quem sabe, a economia do Partido esteja desacelerando de verdade. Em abril, milagre. Volta tudo, com juros. Superávit comercial inflado, balança gorda, manchete triunfal no Investing. E o leitor médio engole isso como se fosse termômetro de eficiência produtiva, quando na verdade é termômetro de quanto crédito artificial Pequim está disposto a queimar para manter a fábrica do mundo girando mais um trimestre.
Quer dizer, ninguém aqui é ingênuo a ponto de achar que esse número saiu da competição honesta entre empresas privadas otimizando custo. Saiu de subsídio direto, câmbio represado, financiamento estatal a juro negativo, terra cedida pelo Partido, energia bancada pelo contribuinte chinês e uma legislação trabalhista que faria qualquer fiscal do MTE brasileiro ter um treco. É exportação, sim, mas é exportação no mesmo sentido em que um pai rico "vende" o carro do filho com cinquenta por cento de desconto, ele chama de venda, todo mundo sabe que é mesada disfarçada.
E aqui entra a parte que os entusiastas do superávit chinês fingem não ver. Toda a engrenagem só funciona porque do outro lado do balcão tem um americano, um europeu e, cada vez mais, um brasileiro comprando aquilo com dinheiro que não tem. O déficit comercial americano não é virtude da China, é vício do consumidor ocidental sustentado pela impressora do Federal Reserve e pela complacência de bancos centrais que descobriram, faz tempo, que é mais barato exportar inflação para emergentes do que dizer ao eleitor que o churrasco acabou. Cada contêiner que sai de Xangai é um IOU que sai de Washington.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara ainda. Quem ganha com superávit chinês inflado? O Partido, que precisa de divisa estrangeira para bancar projeto de prestígio, Belt and Road que não dá retorno, e um aparato de vigilância que custa mais que muita força armada da OTAN. Quem ganha do lado de cá? Varejista que vive de produto chinês, big tech que monta hardware lá, lobby industrial americano que finge protestar enquanto move fábrica para Shenzhen, e político que adora cortar fita de obra com aço chinês a metade do preço. Quem perde? O sujeito do interior dos Estados Unidos cuja cidade virou museu de fábrica fechada, e o trabalhador chinês ganhando salário arrochado para o gráfico de exportações continuar bonito.
Tem ainda o detalhe que cabe lembrar quando se fala de balança comercial. Superávit não é riqueza, é troca. Vender mais do que se compra significa, na contabilidade fria, mandar embora bens reais e receber em troca pedaço de papel emitido por um governo estrangeiro endividado. A China acumulou trilhões em treasuries americanas e descobriu, tarde, que aquilo é refém, não trunfo. Cada vez que Washington imprime, a poupança chinesa derrete em silêncio. O superávit comemorado em manchete é, na prática, uma promissória denominada na moeda do devedor. Tem coisa pior que isso? Tem. É achar que isso é vitória econômica.
O fato de abril ter "se recuperado fortemente" depois de um março fraco também conta uma história menos heróica do que parece. Economia saudável não oscila assim, ela cresce em ondas suaves, com produtividade subindo, capital se acumulando, preços relativos se ajustando. Esse zigue-zague é assinatura de economia dirigida, onde o Estado abre e fecha a torneira de crédito conforme a manchete que precisa publicar. É boom artificial seguido de bust adiado, e cada adiamento custa mais caro que o anterior. A conta dessa festa toda vai chegar, e quando chegar não vai ser na rubrica de exportações, vai ser na rubrica de bancos quebrados, imobiliário em frangalhos e capital fugindo pela porta dos fundos.
No fim, comemorar superávit chinês de abril é o mesmo que comemorar que o vizinho endividado conseguiu mais um cartão de crédito. Por enquanto, ele te paga em dia. Depois, você descobre que o aval era seu.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.