Vinte e cinco por cento. É esse o número que a China despejou no mundo em agosto, e a manchete corre pelos terminais da Bloomberg como se fosse um milagre da produtividade asiática, quando é apenas o resultado matemático de um regime que subsidia energia, reprime salário, manipula câmbio e trata trabalhador como insumo descartável. Não existe milagre. Existe planilha de custo artificialmente rebaixada por decreto do Partido, e existe um Ocidente que assinou o próprio atestado de óbito industrial em nome de uma globalização que sempre foi rua de mão única.
Vamos ao ponto que ninguém quer olhar. Quando um país imprime crédito em volume que faria o Banco Central americano parecer conservador, quando aloca capital por decisão política e não por sinal de preço, quando produz aço, painel solar, veículo elétrico e maquinário pesado abaixo do custo real e ainda assim mantém superávit de bilhões, isso não é competitividade, é dumping estratégico financiado pela poupança forçada de um bilhão e meio de pessoas que não podem reclamar. O consumidor europeu que compra o carro elétrico chinês barato está, sem saber, participando de um esquema em que o operário de Chongqing paga o desconto com anos de vida e o operário de Stuttgart paga com o próprio emprego.
E aqui vem a parte que a imprensa econômica se recusa a admitir. O superávit chinês só é possível porque o Ocidente aceitou, por três décadas, a tese suicida de que fabricar era coisa de país atrasado e que o futuro estava em serviços, apps e consultoria. Fecharam siderúrgica em Ohio, desmontaram naval em Liverpool, empurraram petroquímica para fora da Alemanha, tudo em nome de uma agenda ambiental seletiva que persegue a fumaça do vizinho e ignora a fumaça do fornecedor. Resultado, hoje a Europa não fabrica um transformador elétrico sem componente chinês, os Estados Unidos não montam um míssil sem terra rara chinesa, e o Brasil olha para tudo isso com a boca aberta enquanto exporta soja e minério para importar tratores made in Shandong.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais suja. Quem lucra com o superávit chinês não é o povo chinês, que continua vivendo em apartamento minúsculo e comendo o que sobra da cadeia de suprimentos. Quem lucra é a nomenklatura vermelha, os fundos soberanos que compram porto em Pireus, ferrovia na África, mineração no Peru e influência política em Brasília com o dólar acumulado no comércio desigual. Cada contêiner que sai de Xangai é um pedaço de soberania alheia sendo comprada a prazo, e o pagamento vem na forma de dependência estratégica que só se percebe quando é tarde demais, geralmente no dia em que precisa de um chip e descobre que a fábrica fica do outro lado do mundo, sob controle de um partido único.
O detalhe brasileiro merece parágrafo próprio. Enquanto Brasília discute taxação de streaming e cria mais uma agência reguladora para vigiar padaria, o parque industrial de São Bernardo vira depósito de peça importada, a linha branca migra para Manaus só pelo benefício fiscal e não pela vocação industrial, e a indústria têxtil de Americana virou museu. A resposta oficial é subsídio para carro elétrico, sem perguntar de onde vem a bateria. Vem da China. Sempre vem da China. Estamos financiando com dinheiro público a substituição do nosso próprio emprego industrial pelo produto de um regime que nos vê como quintal de matéria-prima e mercado consumidor de descartável.
A moral da história é velha e ninguém quer ouvir. Riqueza real vem de produzir, não de intermediar. Soberania vem de fabricar, não de regular. E liberdade econômica não sobrevive ao voluntarismo de burocratas que acham que podem redesenhar cadeias globais no PowerPoint enquanto o adversário sistêmico produz vinte e cinco por cento a mais e ri da nossa cara com sotaque de Mandarim. O dragão não é forte porque é genial. O dragão é forte porque nós ficamos fracos por escolha, e agora fingimos que não sabemos como chegamos até aqui.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.