A cena beira o ridículo. Faltando poucos dias para a visita presidencial à China, Washington engrossa a voz, ameaça tarifa, promete retaliação, e do outro lado do Pacífico os galpões de Shenzhen, Yiwu e Dongguan continuam carregando navio com a serenidade de quem já viu esse filme três vezes. Os exportadores não estão blefando, não estão fazendo pose, estão simplesmente operando. Estão expandindo para a Europa, abrindo rota para a África, redirecionando estoque para o sudeste asiático, e tratando a tarifa americana como o que ela é: um custo administrativo, um pedágio chato, não uma sentença de morte. Quem grita mais alto nessa história não é quem tem mais força, é quem tem mais medo de mostrar fraqueza.
Olha, a tarifa é um instrumento que a propaganda oficial vende como punição ao adversário e a realidade entrega como punição ao próprio cidadão. Quem paga a tarifa que entra na alfândega de Los Angeles não é o operário de Cantão, é o consumidor americano no caixa do Walmart. O fabricante chinês repassa, ajusta margem, troca de comprador, e segue. O importador americano repassa para o varejo, o varejo repassa para o consumidor, e o consumidor descobre que a brincadeira de protecionismo custa caro no bolso dele. O que se vê é o discurso patriótico no púlpito; o que não se vê é a inflação rastejando por cada prateleira de supermercado, cada peça de reposição automotiva, cada eletrônico de consumo. A conta sempre chega, e quem assina embaixo é sempre o mesmo sujeito: o pagador de imposto que ainda por cima foi convencido de que aquilo era a favor dele.
Quer dizer, a China não enriqueceu por acaso, e nem por bondade do partido único que a governa. Enriqueceu porque, durante três décadas, deixou que milhões de pessoas produzissem, comerciassem, errassem e acertassem dentro de uma margem de liberdade econômica que o discurso ideológico do regime jamais reconheceria publicamente. O resultado é uma cadeia produtiva tão capilarizada, tão integrada, tão eficiente em custo, que substituí-la exige não uma canetada presidencial, mas uma reconfiguração de duas décadas e trilhões de dólares de capital realocado. Nenhum decreto faz isso. Nenhuma tarifa faz isso. E os exportadores chineses, que conhecem a própria força melhor do que qualquer think tank de Washington, simplesmente sabem disso.
Me diz uma coisa, qual é o sentido de uma visita presidencial precedida por ameaças se o ameaçado já mostrou, com números, que a ameaça não morde? Isso não é diplomacia, é teatro de variedades para consumo doméstico. O eleitor americano precisa ver o presidente subindo no palanque, batendo no peito, prometendo trazer a manufatura de volta, defendendo o trabalhador esquecido. E precisa ver isso porque, no fundo, o problema do trabalhador americano não foi criado pelo chinês: foi criado por décadas de regulação asfixiante em casa, de tributação confiscatória sobre quem produz, de bancos centrais inflando bolha atrás de bolha, de uma máquina pública que sufoca a pequena empresa enquanto subsidia o grande conglomerado financeiro. A culpa é do estrangeiro porque admitir a culpa do próprio Estado custa votos.
E aqui o ponto que ninguém quer enfrentar de frente. Quando o governo decide quem pode comprar de quem, a que preço, com qual tarifa, em qual quantidade, ele não está protegendo nada além do lobby que financiou a campanha. O setor que ganha com a tarifa não é o consumidor, não é o trabalhador médio, não é o pequeno produtor, é o grupo organizado que consegue cochichar no ouvido certo no Capitólio certo. Siga o dinheiro e você vai encontrar três ou quatro setores influentes lucrando com a barreira, milhões de famílias pagando pela barreira, e um discurso patriótico servindo de fumaça para que ninguém perceba a distribuição reversa de renda em curso. É pilhagem legalizada com bandeira hasteada, e funciona porque a maioria continua acreditando que a bandeira torna a pilhagem nobre.
O recado dos galpões chineses, dado em silêncio, sem coletiva de imprensa, sem dossiê assinado por consultoria americana, é o recado mais claro que qualquer chanceler poderia entregar. Tarifa não é geopolítica, é desespero embalado para presente. Quem precisa de protecionismo não está protegendo indústria, está protegendo a própria incompetência. E quando o produtor do outro lado do mundo continua trabalhando enquanto o seu fica esperando ajuda do governo, o veredito está dado antes mesmo da visita aterrissar em Pequim.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.