A AfD venceu mais uma eleição estadual na Alemanha e Friedrich Merz, do alto de sua cadeira de chanceler, resolveu chamar o resultado de "desastre". Curioso o uso da palavra. Desastre é enchente, é terremoto, é coisa que cai do céu sem aviso. Não é o caso. O que aconteceu na urna alemã foi a colheita rigorosamente previsível de uma safra plantada com esmero por trinta anos de coalizão centrista, imprensa domesticada e Bruxelas legislando de longe sobre o preço do pão, o tipo de aquecedor da casa alheia e a cor moral que o cidadão devia exibir em público. O desastre, portanto, não está na urna. Está no que a classe política alemã fez fora dela e depois se recusou a olhar no espelho.

Vale lembrar o cenário concreto. A economia alemã encolheu, a indústria automotiva agoniza, a conta de energia triplicou depois que decidiram fechar reatores nucleares em nome de uma virtude ambiental que ninguém pediu, e o cidadão comum viu o poder de compra derreter enquanto o governo distribuía bilhões para acomodar migração descontrolada e financiar guerras alheias. Some a isso um Banco Central Europeu imprimindo euros como se fosse papel de embrulho, uma inflação que corroeu a poupança de quem passou a vida economizando, e uma regulação verde que transformou o galpão do marceneiro em réu contumaz. Depois disso tudo, o sujeito de Frankfurt an der Oder vota na única legenda que ao menos finge ouvi-lo, e os figurões chamam ele de nazista. Genial.

Siga o dinheiro e a fotografia fica ainda mais nítida. Quem lucrou com essa festa? As grandes ONGs de assistência migratória que viraram indústria bilionária, os consultores de "transição energética" que emitem selo verde por metro quadrado, os bancos alemães que compraram dívida do sul da Europa sabendo que o contribuinte de Munique cobriria o rombo, e a burocracia infinita de Bruxelas, onde funcionário público não eleito ganha mais que ministro alemão e não presta contas a ninguém. Quem pagou? O açougueiro da Saxônia, o metalúrgico de Turíngia, o aposentado que agora escolhe entre remédio e aquecimento. É o velho arranjo: privatizar o lucro simbólico da virtude e socializar o custo prático dela.

Existe uma lei silenciosa da política que os manuais de ciência política nunca sublinham o suficiente. Quando você proíbe o cidadão de reclamar em voz baixa, ele reclama em voz alta. Quando você proíbe a voz alta, ele reclama na urna. E quando você tenta anular a urna com processo judicial, comissão parlamentar e proibição de partido, ele reclama de forma que ninguém mais consegue ignorar. A Alemanha do centrão passou uma década chamando de "extremista" qualquer um que questionasse a política migratória, a agenda climática ou os cheques em branco para Kiev. O resultado é que agora um em cada três eleitores no leste está classificado como extremista pelo próprio governo que jurou representá-lo. Talvez o problema não seja o eleitor.

O detalhe mais saboroso da história é o vocabulário empregado pelos derrotados. "Desastre", "ameaça à democracia", "populismo". Note a inversão. O partido que ganhou a eleição, com voto secreto, contagem transparente e alternância de poder, é a "ameaça à democracia"; e os que perderam, e agora conspiram nos bastidores para inventar mecanismos jurídicos que anulem esse voto, são os "democratas". É o velho truque de rebatizar o roubo de "redistribuição" e o controle de "proteção". Democracia, para essa gente, é o povo votar no que eles já decidiram. Qualquer outra coisa é patologia, ignorância, "desastre".

A verdade nua e crua é que a Alemanha não está enlouquecendo. Está acordando, tarde e com ressaca, do sonho paternalista de que uma elite iluminada em Berlim e Bruxelas saberia melhor que ela própria como gastar seu dinheiro, criar seus filhos, aquecer sua casa e escolher seus vizinhos. O desastre de que fala Merz é apenas o barulho que faz uma nação inteira ao redescobrir que tem voz. E quem construiu a fábrica do desastre não tem legitimidade nenhuma para reclamar do produto que ela finalmente entregou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.