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Em fevereiro deste ano, o Exército dos Estados Unidos disparou sistemas laser de alta energia sobre El Paso sem qualquer autorização da FAA. O resultado foi imediato: 14 voos comerciais cancelados, aeronaves de emergência médica desviadas por quase 80 quilômetros, espaço aéreo fechado duas vezes, e, como cereja do bolo, a destruição de um drone de vigilância do próprio serviço de fronteira americano, um equipamento de 30 milhões de dólares. Fogo amigo, no sentido mais literal e dispendioso possível. Qualquer empresa privada que causasse um caos desse porte responderia com multas, ações civis e provavelmente processos criminais. O Exército americano, dois meses depois, recebeu um acordo com a FAA formalizando exatamente o que fez sem permissão.

Isso tem um nome: o Estado primeiro age, depois regulariza. É o padrão histórico de toda expansão de poder institucional. O precedente perigoso não precisa ser estabelecido por debate democrático, por audiência pública, por aprovação legislativa. Basta agir, provocar o desastre, e depois apresentar a legalização como a "solução responsável" para o problema que você mesmo criou. O contribuinte americano pagou pelo drone destruído e pagará pelos sistemas que o substituirão. A lógica circular do Estado em ação: o erro gera o contrato de reposição, o contrato de reposição justifica a regulação, a regulação abre o pipeline para os próximos contratos.

E os contratos são generosos. A Raytheon tem 123 milhões de dólares em jogo. A BlueHalo, uma empresa que pouca gente conhecia, saiu dessa história com 95 milhões em prototipagem de energia direcionada. O argumento de venda é sedutor: cada disparo do laser custa entre três e cinco dólares, contra até cem mil dólares de um míssil interceptador. O que essa conta não inclui é o custo dos sistemas, da infraestrutura, da integração, do treinamento, da regulação que agora precisa ser redesenhada, e dos acidentes futuros que o histórico recente torna praticamente inevitáveis. O custo visível é o disparo de cinco dólares. O custo invisível é um ecossistema inteiro de despesa pública que se autoalimenta. Quando alguém te apresenta um argumento de custo-benefício assim, pergunte quem calculou e quem assinou o contrato.

A narrativa oficial é a dos cartéis mexicanos usando drones para cruzar a fronteira. E drones de cartel existem, isso não é ficção. Mas observe a progressão: um problema real, de escala ainda incerta, justifica a militarização permanente do espaço aéreo doméstico americano com armas de alta energia, com critérios vagos de "ameaça", operadas por uma estrutura que demonstrou recentemente ser capaz de cancelar voos comerciais por acidente. A FAA agora exige que qualquer aeronave num raio de cinco milhas náuticas da fronteira transmita ADS-B sob pena de ser considerada alvo. Drones civis legítimos, de agricultores a fotógrafos a pesquisadores universitários, entram nessa zona de ambiguidade operacional. A vítima colateral da solução costuma ser mais barata do que a ameaça que a justificou.

Há um padrão que se repete ao longo da história sempre que se oferece segurança em troca de jurisdição. O espaço aéreo americano era, até recentemente, um domínio administrado por regras civis com exceções militares bem delimitadas. O que foi assinado em 10 de abril de 2026 inverte essa lógica: cria precedente para presença militar permanente em espaço aéreo doméstico, com poder de destruição imediata, lastreado num histórico operacional que inclui a destruição do próprio equipamento. Quando a tutela do Estado expande seus instrumentos, ela raramente os devolve. A história não registra um único caso em que um exército, tendo conquistado nova jurisdição sobre o espaço aéreo de seu próprio país, voluntariamente a reduziu em tempos de paz.

O laser de cinco dólares por disparo é um bom título. O que vem depois do título é sempre mais caro.

Com informações da ZeroHedge. A análise e opinião são do O Algoz.