Dalia Fahmy aparece na Bloomberg explicando, com a serenidade de quem analisa um problema de tabuleiro, que Trump está cansado de voltar ao JCPOA, o acordo nuclear que Obama costurou com Teerã em 2015. Cansado é uma palavra interessante para descrever o que deveria ser dito com clareza cirúrgica: aquele acordo foi uma das maiores transferências de recursos da história recente para um regime que financia milícias do Líbano ao Iêmen, e o cidadão americano pagou a conta sem nunca ter sido consultado. Agora, com Hezbollah rejeitando o cessar-fogo intermediado pelos Estados Unidos no Líbano e os ataques recrudescendo, o mundo descobre, mais uma vez, que comprar paz com dinheiro de contribuinte só financia a próxima guerra.

Vale lembrar como funcionou a engenharia financeira de 2015. Liberaram-se cerca de cento e cinquenta bilhões de dólares em ativos congelados, somados a remessas em dinheiro vivo despachadas em paletes para Teerã, sob o argumento de que o regime usaria os recursos para reconstruir sua economia e integrar-se ao concerto das nações civilizadas. O que aconteceu na prática qualquer analista honesto sabia que aconteceria: o dinheiro irrigou o Corpo da Guarda Revolucionária, irrigou o Hezbollah, irrigou os Houthis, irrigou as milícias xiitas no Iraque e na Síria. Cada foguete que cai hoje em Israel, cada drone que ataca um navio mercante no Mar Vermelho, cada civil libanês morto numa guerra que ninguém escolheu carrega um pedacinho daquele cheque diplomático de 2015. Isso é o que não se vê quando o jornalista anuncia, com voz de procissão, que uma grande potência liberou recursos para promover a estabilidade regional.

O problema do JCPOA nunca foi técnico, foi ontológico. Um acordo pressupõe duas partes que pretendem cumpri-lo. Quando uma das partes anuncia, em coro ritualístico há quarenta e seis anos, que pretende eliminar do mapa um Estado vizinho membro da ONU, o documento assinado não é tratado de paz, é certidão de ingenuidade. O ocidente acreditou que poderia domesticar o regime dos aiatolás oferecendo prosperidade comercial, como se a teocracia revolucionária funcionasse pela mesma lógica de um conselho de administração da Apple. Não funciona. A motivação ideológica de Teerã é anterior e superior ao cálculo econômico, e quem ignora isso está fazendo análise geopolítica com manual de economia comportamental do MBA.

Trump, que tem muitos defeitos mas possui o instinto comercial de quem já apertou mão de gente desonesta no ramo imobiliário de Nova York, percebeu o óbvio que toda a casta diplomática de Washington fingia não ver. Voltar ao JCPOA seria reabrir a torneira sem ter resolvido nada do que importa: o programa de mísseis balísticos, o financiamento ao terror, a infiltração regional, a doutrina do martírio aplicada a uma teocracia armada. A diplomacia da era Obama operava no pressuposto encantador de que basta sorrir bastante e o lobo vira poodle. A realidade respondeu com Hezbollah cuspindo na trégua e mísseis voando sobre Tel Aviv.

Há ainda a dimensão doméstica americana que ninguém discute. Cada dólar enviado a Teerã em 2015 era um dólar tirado, via inflação e endividamento, do trabalhador de Ohio, do aposentado da Flórida, do pequeno empresário do Texas. Não houve referendo, não houve consulta, não houve sequer um debate sério no Congresso, porque Obama tratou o acordo como executive agreement justamente para escapar da ratificação por dois terços do Senado. A diplomacia virou hobby presidencial pago com o dinheiro alheio, exatamente o modelo que os pais fundadores tentaram impedir e que a máquina administrativa contemporânea fabricou em escala industrial.

O Oriente Médio sangra hoje porque o ocidente passou décadas confundindo gestão com firmeza, compra com paz, e diplomacia com transferência de riqueza. Trump pode estar errado em mil coisas, mas neste ponto ele acertou em cheio ao recusar repetir a mesma reza com o mesmo terço. A história ensinará, mais uma vez, que paz comprada não é paz, é prestação.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.