O Ibovespa bateu 197 mil pontos na quinta-feira passada, ergueu a taça, olhou para frente e encontrou uma guerra. O vice-presidente americano passou 21 horas em Islamabad sentado frente a frente com negociadores iranianos, e saiu de lá sem nada assinado. O Estreito de Ormuz continua fechado, o petróleo continua pressionado, e os 200 mil pontos continuam sendo uma promessa, não um fato. A bolsa recuou 0,45% na sessão de segunda-feira. O dólar, que já roçava os R$ 5,00 como um boxeador tocando o tapete antes de se recuperar, voltou para R$ 5,02. Esses são os fatos. Tudo o mais é narrativa.

Mas a narrativa importa, então vamos destrinchá-la. O que está acontecendo aqui não é uma má notícia, é uma boa notícia com falta de paciência. O fluxo estrangeiro continua forte. A Selic está em ciclo de corte. O mercado já digeriu as tarifas americanas de abril do ano passado, que custaram 10 pontos percentuais de sangue e foram absorvidos como quem engole comprimido amargo. As projeções mais conservadoras colocam o Ibovespa em 205 a 220 mil no fim do ano. O capital que entrou nessa bolsa não é dinheiro de curto prazo apostando em ruído, é dinheiro que leu os fundamentos e chegou a uma conclusão. O problema é que fundamentos e geopolítica falam línguas diferentes, e às vezes nenhum dos dois fala mais alto que o medo.

Há algo quase cômico, se não fosse trágico, na situação de um país como o Brasil ter sua bolsa de valores presa num intervalo de 195 a 197 mil pontos por causa de uma negociação de paz que fracassou em Islamabad. O Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo que o mundo consome, continua fechado porque dois governos não chegaram a acordo sobre armas nucleares e zonas de influência. O resultado disso, aqui, em São Paulo, é que o investidor olha para a tela, vê o Ibovespa perto do recorde histórico e fica com o dedo suspenso sobre o mouse, sem saber se aperta compra ou vende. Não existe almoço grátis, e a conta do conflito chega para quem nem está no conflito.

O que o mercado está fazendo neste momento é precificar incerteza, que é a única coisa honesta que pode fazer. O sistema de preços, esse mecanismo descentralizado que processa mais informação por segundo do que qualquer sala de situação governamental, está dizendo: existe força aqui, existe perspectiva, mas existe também uma variável que nenhum analista consegue modelar, que é a disposição de dois líderes políticos de recuarem do precipício ou pularem juntos. O mercado não é pessimista, é realista. E o realismo, no momento, prescreve cautela.

O que merece atenção, e que a manchete de aversão a risco obscurece, é a resiliência estrutural que os ativos brasileiros demonstraram nesse período todo. A bolsa não despencou. O real não disparou para R$ 5,50. O fluxo estrangeiro não reverteu. Isso significa que o dinheiro que veio para o Brasil veio por razões mais profundas do que um acordo de paz que pode acontecer semana que vem ou em seis meses. E quando o acordo acontecer, e o petróleo cair, e o Estreito reabrir, e a inflação global aliviar um grão, o mercado não vai perguntar "o que mudou?" porque já sabe a resposta. Vai só apertar o botão que estava segurando desde quinta-feira passada.

O dólar abaixo de R$ 5,00 e o Ibovespa acima de 200 mil não são missões impossíveis, são missões adiadas. Existe uma diferença fundamental entre as duas, e o mercado, ao contrário da imprensa financeira de plantão, sabe muito bem distingui-las. Quem acha que o brasil travou, que a festa acabou, que o teto foi atingido, está olhando para o medidor de gasolina e concluindo que o carro não anda. O carro anda. Só está esperando a estrada desimpedir. O problema é que a estrada passa pelo Estreito de Ormuz, e quem manda no Estreito, no momento, não é o Banco Central do Brasil.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.