O fato é simples, quase banal na sua crueza: quando os grandes fundos de private equity foram expulsos do setor de petróleo e gás pelos sacerdotes da agenda ESG, alguém precisava ocupar o espaço. E alguém ocupou. Não foram os painéis solares, não foi a energia eólica, não foi o "futuro renovável" prometido em cada fórum de Davos. Foram os family offices, os veículos de investimento das famílias mais ricas do planeta, aquelas que respondem para nenhum conselho de diversidade, nenhum índice de sustentabilidade e nenhum relatório de impacto ambiental. Entraram no petróleo quando todo mundo saía correndo. E agora contam os lucros.
Por anos, os grandes gestores institucionais, fundos de pensão, fundos soberanos e private equity de capital aberto foram constrangidos, pressionados e eventualmente capturados pela doutrina ESG, aquela sigla de três letras que prometia "alinhar o capital com os valores do futuro". O que essa doutrina fez na prática foi expulsar capital privado de um setor que o mundo ainda precisa, que ainda movimenta cadeias inteiras de produção, que ainda aquece casas no inverno europeu e ainda roda as turbinas de hospitais no interior do Brasil. O petróleo não desapareceu porque os gestores de Boston e Londres pararam de investir nele. O preço é que ajustou, e quem leu o sinal certo ficou milionário.
Siga o dinheiro, sempre. Enquanto os fundos obedientes publicavam relatórios de sustentabilidade e exibiam certificações verdes em seus sites institucionais, os family offices identificaram a distorção e agiram. Capital saindo de um setor produtivo não faz o setor sumir; faz o setor ficar mais barato e mais atraente para quem não está acorrentado ao calendário moral do momento. A escassez artificial de financiamento comprimiu a oferta, a demanda mundial de energia seguiu seu curso imperturbável, e o resultado foi uma valorização expressiva que transformou as apostas discretas dos patriarcas ricos em ganhos substanciais. O moralismo dos outros foi o negócio da vez.
Existe uma ironia devastadora aqui que merece ser enunciada sem meias palavras. Os defensores do ESG insistem que a agenda é necessária para "democratizar" o capitalismo, para fazer as empresas responderem por seus impactos, para proteger o pequeno investidor do futuro. Mas quem ficou de fora do rali do petróleo? Os fundos de pensão que gerenciam as aposentadorias de professores, metalúrgicos e funcionários públicos, aqueles que foram pressionados a desinvestir do setor por ativismo corporativo e governança progressista. E quem embolsou os ganhos? As famílias que já possuem patrimônio suficiente para montar estruturas privadas imunes à pressão ideológica. O ESG não nivelou o campo de jogo. Criou um campo inclinado a favor dos mais ricos, e ainda vendeu isso como virtude.
Há uma lição que reaparece com irritante regularidade ao longo da história econômica: quando ideólogos interferem no mecanismo de preços, os efeitos colaterais beneficiam exatamente quem eles dizem combater. O protecionismo criado para defender o trabalhador empobrece o consumidor. O controle de aluguel criado para "garantir moradia" reduz a oferta e expulsa os mais pobres das regiões valorizadas. E a pressão ESG criada para punir o petróleo expulsou os pequenos e médios investidores do setor e entregou o lucro do rali para os escritórios de gestão patrimonial dos ultra-ricos. A intenção era nobre. O resultado foi o de sempre.
O petróleo seguirá sendo extraído enquanto o mundo precisar dele, que será por muito mais tempo do que os cronogramas de transição energética prometem. A pergunta pertinente não é "quando o petróleo acaba" mas sim "quem vai ficar com os lucros até lá". A resposta, por ora, é clara: quem teve a inteligência ou a liberdade de ignorar o consenso virtuoso. E enquanto os fundos de pensão explicam aos seus cotistas por que ficaram de fora de um dos melhores movimentos da última década, os family offices já estão procurando a próxima distorção criada pela próxima agenda do momento. O mercado não tem memória, mas tem paciência infinita para apresentar a conta a quem escolheu a aparência da virtude no lugar da realidade dos fatos.
Com informações da CNBC. A análise e opinião são do O Algoz.