A notícia veio embrulhada no papel-presente de costume. Fangzhou, plataforma chinesa de saúde digital, firma parceria com a Tenry Pharmaceutical para "ampliar o acesso" ao tratamento de diabetes. Tradução para o português dos mortais: duas empresas decidiram dividir um mercado que, só na China, ultrapassa cento e quarenta milhões de diabéticos, e o investidor de Xangai a Nova York vibra com a notícia como se tivesse descoberto fogo. O diabetes virou, faz tempo, o petróleo silencioso da indústria farmacêutica global, e cada anúncio desses é menos sobre saúde e mais sobre divisão de território.
Olha, ninguém aqui é contra parcerias comerciais. Empresas se associam, dividem riscos, otimizam logística, e isso é a engrenagem mais antiga e mais honesta do capitalismo de verdade, aquele que existe quando o Estado fica no canto e deixa o sujeito trocar valor por valor. O problema começa quando a indústria farmacêutica, em qualquer canto do planeta, não opera num mercado livre, opera num mercado capturado, regulado, subsidiado, patenteado por décadas e protegido por uma muralha de agências sanitárias que, na prática, decidem quem entra e quem morre na fila da concorrência.
Quer dizer, alguém ainda acredita que o preço de um medicamento para diabetes reflete custo de produção mais margem razoável? A insulina humana foi descoberta em mil novecentos e vinte e um, e os pesquisadores venderam a patente por um dólar simbólico justamente para que ela fosse barata como sal de cozinha. Cem anos depois, o mesmo princípio ativo, produzido em escala industrial, custa o salário mensal de um trabalhador em vários países. Por quê? Porque o sistema regulatório criou um castelo de patentes, exclusividades de mercado e barreiras de entrada que transformou o que deveria ser commodity em joia rara. E cada parceria nova entre gigantes do setor consolida ainda mais esse arranjo.
Me diz uma coisa, quando duas empresas que já dominam pedaços do mercado se juntam, isso aumenta ou diminui a concorrência? A resposta é óbvia para quem não tem ações na bolsa de Hong Kong. Diminui. E quando a concorrência diminui, o preço sobe, a inovação desacelera, e o consumidor final, no caso o diabético que precisa do remédio para não morrer, vira refém de uma engenharia financeira que ele nem sabe que existe. O paciente acha que está comprando saúde, está comprando, na verdade, o spread entre o custo real de produção e o preço protegido por décadas de lobby regulatório.
O caso chinês tem ainda um agravante delicioso de ironia. O Partido Comunista Chinês, que em tese deveria ser o paladino do proletariado contra o capital, é precisamente o ente que regula, autoriza, abençoa e lucra com essas fusões e parcerias farmacêuticas. A Fangzhou só existe na escala em que existe porque o Estado chinês permitiu, e a Tenry só dança esse tango porque foi convidada para o baile. O socialismo de mercado que tanto encanta os comentaristas progressistas ocidentais é, na prática, o capitalismo de compadrio mais brutal já inventado, com a vantagem cínica de poder fuzilar quem reclamar.
No fim, o que se vê é o anúncio luminoso da parceria. O que não se vê é o pequeno laboratório que nunca vai nascer porque não consegue capital para enfrentar essa barreira, é o genérico que vai demorar mais cinco anos para chegar ao mercado, é o diabético em São Paulo, em Xangai ou em Joanesburgo que vai continuar pagando caro por algo que, num mercado verdadeiramente livre, custaria uma fração. A festa é dos acionistas, a conta é do enfermo, e a imprensa especializada serve o champanhe.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.