Quarenta bilhões de euros. É o tamanho do buraco que o setor farmacêutico alemão acumulou enquanto Berlim se ocupava em escrever portarias, fixar tetos de preço, condicionar reembolso e exigir compliance ambiental para fabricar comprimido de dipirona. O país que inventou a aspirina, que sustentou Bayer, BASF e Boehringer como joias da coroa industrial europeia, hoje vê suas farmacêuticas sangrarem capital, fugirem para os Estados Unidos e cancelarem fábricas em solo nacional. Quer dizer, o paciente está na UTI, e o médico responsável é justamente quem lhe vendeu a doença disfarçada de remédio.

Olha, não há mistério algum aqui, embora a imprensa econômica alemã insista em apresentar o caso como uma fatalidade meteorológica, algo entre a guerra na Ucrânia, o preço do gás e a maldade chinesa. A verdade é mais prosaica e por isso mesmo indigesta. Quando o governo decide que o preço do medicamento será definido por um comitê e não pelo encontro entre quem produz e quem precisa, a conta sempre chega, com juros e correção monetária. O famoso AMNOG, mecanismo que obriga as farmacêuticas a negociar reembolso com o sistema público sob ameaça de exclusão de mercado, virou na prática um confisco regulado. Inovação custa dez, doze, quinze bilhões de dólares por molécula nova, e o burocrata de Berlim aparece para informar que pagará três. Quem tem alternativa, vai embora. Quem não tem, fecha.

Some-se a isso a sopa verde que tomou conta da política industrial europeia. Cada nova diretriz ambiental, cada exigência de relatório ESG, cada auditoria de cadeia de suprimentos é um carimbo a mais no preço final, e o preço final, lembrem-se, está congelado por decreto. A matemática é simples e implacável: custos crescentes mais receita travada igual a margem zero, depois prejuízo, depois mudança de endereço. Os americanos, com toda a sua confusão política, oferecem algo que a Europa esqueceu que existia, a saber, retorno sobre capital investido. Pfizer e Merck americanas batem recordes enquanto suas primas europeias demitem em Leverkusen e Ingelheim. Não é sorte, é incentivo.

E aqui vale seguir o dinheiro, porque ele sempre fala mais alto que os comunicados oficiais. Quem ganha com o preço artificialmente baixo do remédio? No discurso, o cidadão. Na prática, o sistema público de saúde, que economiza no curto prazo e empurra o custo da escassez de inovação para a próxima década, quando o paciente alemão descobrirá que o tratamento de ponta para o câncer dele só está disponível em Boston. Quem perde? O acionista da empresa, primeiro; o trabalhador da fábrica fechada, em seguida; e por fim o próprio doente, que descobrirá tarde demais que remédio barato e remédio existente são coisas diferentes. A janela quebrada da farmacêutica regulada produz um ganho visível e imediato no caixa do SUS alemão, e uma destruição invisível e silenciosa no laboratório que não existirá daqui a dez anos.

Há ainda o capítulo cultural da tragédia, que é o mais sintomático. A Alemanha, durante décadas, vendeu ao mundo a fábula de que conseguia combinar Estado robusto, sindicalismo forte, regulação minuciosa e competitividade global. Era o famoso modelo renano, que servia de bengala retórica para todo intervencionista de plantão. Pois bem, o modelo está em frangalhos, e ninguém nas redações sérias da Frankfurter Allgemeine ou do Handelsblatt tem coragem de dizer o óbvio, que é o seguinte: você não regula a inovação, você a permite ou a sufoca. Não existe meio termo elegante, não existe via média confortável, não existe terceira via. Existe liberdade de empreender com risco e recompensa, ou existe planilha de Excel decidindo quem vive e quem morre no balanço industrial.

O rombo de quarenta bilhões é, portanto, apenas a parcela contábil de uma falência muito maior, a falência intelectual de uma elite política que ainda acredita poder ter os benefícios do capitalismo sem suportar suas exigências. A Alemanha vai descobrir, como toda nação que tentou esse truque antes, que a impressora regulatória não substitui a impressora científica. E quando finalmente perceber, talvez já não haja mais Bayer para salvar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.