Berlim olhou para o próprio orçamento, viu um abismo de quarenta bilhões de euros e fez o que todo governo em apuros faz quando descobre que a matemática não obedece a decreto: procurou um pescoço fino para apertar. Achou nas farmácias. O setor que distribui medicamento de ponta a ponta no país, que sustenta a logística silenciosa pela qual o idoso recebe insulina e a criança recebe antibiótico, foi escolhido como vítima preferencial do ajuste. Não os ministérios inchados, não os subsídios verdes que viraram religião civil, não a máquina previdenciária que cresce como hera. As farmácias.
Convém olhar o que se vê e o que não se vê. O que se vê é o discurso fiscal responsável, o tom adulto, a promessa de que dessa vez o aperto vai ser justo. O que não se vê é o farmacêutico de cidade pequena que fecha a porta porque a margem regulada já era apertada antes do novo torniquete, é o paciente crônico que vai precisar atravessar dois bairros para encontrar um balcão aberto, é o emprego qualificado que evapora enquanto o burocrata em Berlim continua intocado no gabinete climatizado. A conta sempre chega, e quem paga nunca é quem assinou.
Há uma comédia repetida na história europeia que ninguém parece disposto a enxergar. Estado gasta acima da capacidade produtiva, expande compromissos que duram gerações, financia o presente com promessa do futuro e, quando o futuro chega cobrando, descobre que precisa de heróis. Esses heróis são sempre setores produtivos pequenos demais para reagir, organizados demais para serem ignorados pelo fisco, e essenciais demais para fechar a porta sem causar drama público útil ao próximo discurso. Farmácia se encaixa como luva. Resta perguntar quem foi o gênio que decidiu que economia se faz cortando da ponta que entrega valor real, em vez de cortar do meio que apenas redistribui formulário.
O detalhe revelador está em quem não foi tocado. Siga o dinheiro e verá que o aperto evita cuidadosamente os arranjos onde o governo é cliente, fornecedor e regulador ao mesmo tempo, aquele cipoal de programas onde cada euro gasto justifica o cargo de quem fiscaliza o euro gasto. Não é coincidência. É o desenho. Toda crise fiscal alemã das últimas décadas terminou da mesma maneira, com o produtivo levando porrada e o parasitário sobrevivendo intacto, porque o parasitário tem voz no parlamento, lobby na imprensa e a eterna desculpa de que cortar nele seria cruel demais. Cortar no farmacêutico, ah, isso é só ajuste técnico.
O fundo do problema não é orçamentário, é filosófico. Uma sociedade que jurou que o Estado paga tudo, que medicamento é direito sem custo aparente, que aposentadoria é cláusula pétrea e que cada nova categoria merece sua janela no balcão público, mais cedo ou mais tarde encontra a parede da realidade. Os números não negociam. E quando a parede aparece, o reflexo do governante não é reconhecer que a promessa era inviável desde o berço, é encontrar quem espremer mais um pouco. Esse é o despotismo suave de que falavam os mais lúcidos do século passado, o Estado que não bate, sufoca; não prende, regula; não rouba, ajusta.
A Alemanha que se orgulhava de disciplina fiscal está descobrindo que disciplina fiscal de verdade exige cortar onde dói no poder, não onde dói no cidadão. Enquanto preferir o caminho fácil, vai continuar quebrando setor por setor até sobrar apenas a burocracia que quebrou o resto. E aí o último farmacêutico vai apagar a luz, levando junto a ilusão de que dava para sustentar tudo isso para sempre.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.