Quinze drones agrícolas, daqueles que despejam veneno em plantação de soja, sumiram em Nova Jersey, e o FBI quase teve um treco. Não estamos falando de mísseis hipersônicos russos nem de submarinos chineses, estamos falando de máquinas voadoras vendidas em loja de equipamento rural, com capacidade de carregar dezenas de litros de líquido, autonomia respeitável e absolutamente nenhum sistema de defesa do outro lado. O detalhe que ninguém quer encarar é que essa categoria de drone, comprada por qualquer cooperativa, é capaz de derrubar uma subestação elétrica, contaminar a entrada de ar de um data center ou despejar carga útil sobre um estádio lotado num domingo de futebol americano.
Olha, a comédia aqui é estrutural. O Estado americano gasta perto de um trilhão de dólares por ano em defesa, mantém onze porta-aviões espalhados pelos sete mares, opera bases em mais de oitenta países, e ainda assim a infraestrutura crítica que sustenta a vida cotidiana do cidadão comum, a luz que acende, a água que jorra, o servidor que processa o salário, está literalmente a céu aberto, sem cobertura antidrone, sem detecção de baixo custo, sem absolutamente nada. Quem foi o gênio que decidiu que era mais urgente bombardear pastor de cabra no Iêmen do que blindar a subestação que alimenta meio Manhattan? Siga o dinheiro e você entenderá. Há lobby para caça de quinta geração, há lobby para porta-aviões, há lobby para contratos bilionários de fronteira. Não há lobby para proteger a casa do contribuinte que paga toda essa festa.
E aqui mora a contradição que define o império tardio. O mesmo governo que inventou regulamentação para o vizinho não voar drone de brinquedo perto do quintal, o mesmo governo que multou pai de família por filmar casamento com câmera voadora, o mesmo governo que tem agência federal para fiscalizar o tamanho do parafuso da hélice, esse mesmo governo deixa quinze unidades de uma aeronave classe agrícola desaparecerem sem explicação plausível e ainda parece surpreso. Regular o cidadão é fácil, dá manchete, dá cargo, dá orçamento. Proteger a infraestrutura exige planejamento técnico, exige reconhecer que o monopólio estatal da segurança é uma fraude que não entrega o serviço pelo qual cobra na ponta da arma.
O ponto que ninguém quer dizer em voz alta é que a defesa de infraestrutura crítica nos Estados Unidos foi terceirizada para a esperança. Esperança de que o atacante não tenha imaginação. Esperança de que o terrorista seja burro o suficiente para tentar avião comercial de novo, em vez de pegar um drone de cinquenta mil dólares na John Deere. Esperança de que o crime organizado mexicano, que já controla rotas inteiras com drones, não decida que extorquir uma operadora elétrica americana é mais lucrativo que mover fentanil. Quando a estratégia de defesa de uma civilização vira torcida para que o adversário seja idiota, essa civilização já perdeu a guerra antes de o tiro sair.
O que se vê é a histeria do FBI fazendo coletiva, o que não se vê é o trilhão de dólares anuais que deveria ter pago por uma rede de detecção que custaria uma fração disso. O que se vê é o burocrata pedindo mais poder e mais orçamento como remédio para o próprio fracasso, o que não se vê é que cada nova camada de agência federal tornou a coordenação mais lenta, mais cara e mais cega. O Estado moderno é aquele cavalheiro obeso de cartola que se afoga em piscina de meio metro porque está ocupado demais discursando sobre natação. Quinze drones sumiram. Duvido que alguém seja preso. Garanto que três novos departamentos serão criados, com orçamento próprio, sede em Washington e zero capacidade de impedir o próximo sumiço.
A lição que esse episódio entrega de bandeja, e que nenhum noticiário americano terá coragem de tirar, é que segurança real nasce da descentralização, da responsabilidade local e da liberdade do proprietário de armar a própria defesa, não da fantasia de um Leviatã onisciente que enxerga tudo e protege todos. A subestação que alimenta sua cidade deveria ser blindada por quem opera a subestação, com tecnologia comprada em mercado livre, sob incentivo direto de não falir caso o serviço caia. Em vez disso, criamos um arranjo onde a operadora repassa o risco para a seguradora, a seguradora repassa para o governo, o governo repassa para o contribuinte, e ninguém, absolutamente ninguém, tem incentivo para resolver o problema antes que o céu de Newark amanheça com fumaça preta.
Com informações da ZeroHedge. A análise e opinião são do O Algoz.