Olha o paradoxo que a F&G entregou ao mercado no primeiro trimestre: vendas robustas, ativos sob gestão crescendo, retenção de clientes em níveis elevados, e ainda assim o resultado consolidado apanhou feio porque a perna de investimentos, justamente aquela que sustenta o modelo inteiro de uma seguradora de anuidades, não entregou o retorno alternativo que a tesouraria precisava. Quer dizer, o varejo do negócio vai bem, o atacado financeiro vai mal, e o investidor desavisado vê manchete dizendo crescimento sólido sem entender que numa seguradora de vida e renda o lucro mora no spread entre o que ela promete pagar ao cliente e o que ela consegue tirar do dinheiro que recebeu adiantado. Sem spread, não há seguradora. Há fundo de pensão fingindo que é negócio.

E aqui começa a parte que ninguém na CNBC quer explicar com clareza. Seguradoras de anuidades fixas e indexadas viveram uma década de festa quando os bancos centrais ocidentais empurraram a taxa básica para o chão e mandaram todo mundo procurar rendimento em qualquer lugar. As empresas do setor encheram o balanço de crédito privado, dívida estruturada, ativos alternativos exóticos, real estate alavancado, tudo com aquela promessa de que a maturidade seria casada com o passivo de longo prazo. Funcionou enquanto a impressora rodou. Quando o ciclo virou e o custo do dinheiro voltou a ter cara de juros de gente grande, esses ativos passaram a doer no resultado de marcação a mercado, em provisões para perda esperada, em rebaixamentos silenciosos que nenhum release destaca em negrito.

O que se vê é o anúncio comemorativo das vendas. O que não se vê é a engenharia financeira por trás de cada apólice nova, o risco assumido para conseguir oferecer ao cliente uma taxa minimamente competitiva, a fragilidade da carteira herdada de quando o dinheiro era de graça e ninguém precisava pensar duas vezes antes de comprar um pedaço de prédio em Manhattan empacotado dentro de um veículo offshore. Cada trimestre desses é um lembrete de que o ciclo econômico não foi abolido por decreto monetário. Foi adiado, com juros compostos no boleto.

Existe uma lição cristalina nesse caso particular que vale para o setor inteiro e, por extensão, para qualquer brasileiro que esteja olhando produto de previdência privada com olhos de coelho diante do farol. Promessa de rentabilidade futura é tão boa quanto a qualidade dos ativos da seguradora hoje. E qualidade de ativo financeiro montado durante orgia de liquidez tende a envelhecer mal, como vinho guardado em garagem. O cliente que comprou anuidade em 2020 acreditando estar travando renda vitalícia confortável pode descobrir, no meio do caminho, que a empresa do outro lado do contrato está negociando consigo mesma para sobreviver à própria carteira. Não é fraude. É consequência matemática de incentivos torcidos pela política monetária.

Tem mais uma camada que merece atenção, e essa é estrutural. O setor de seguros, especialmente o americano, virou nos últimos quinze anos um braço terceirizado das gestoras de crédito privado, com private equity comprando seguradoras inteiras para usar o passivo de prêmios como funding barato dos próprios fundos. F&G, por sinal, está nesse ecossistema. Vende anuidade ao aposentado, recolhe o prêmio, repassa para gestoras parceiras alocarem em estruturas de crédito privado de alto rendimento e talvez de baixa transparência. Quando o ciclo aperta, a primeira coisa que estoura é a marcação desses ativos. O aposentado descobre, anos depois, que sua aposentadoria estava ancorada em dívida corporativa de empresa que ninguém sabia direito o que fazia. Siga o dinheiro até o fim e o desenho aparece.

O resultado da F&G não é catástrofe nem milagre, é sintoma. Sintoma de uma indústria que aprendeu a vender muito num ambiente de juros distorcidos e agora precisa reaprender a investir num ambiente onde o custo de capital voltou a existir. Quem celebra o crescimento das vendas sem olhar para a deterioração silenciosa do balanço está repetindo o erro clássico de confundir movimento com progresso. Trimestre que vem tem mais. E o ciclo, esse senhor implacável que ninguém revogou, continua cobrando juros sobre cada ilusão monetária que o mundo aceitou financiar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.