Fernando Alonso, bicampeão mundial de Fórmula 1, espanhol, quarenta e poucos anos de carreira construída com talento bruto, disciplina monástica e nervos de aço a trezentos por hora, comprou para si um carro de luxo único no mundo, estimado em R$ 57,6 milhões. Pagou com dinheiro dele, ganho dele, suado dele, contratado dele. E, como num rito litúrgico que se repete a cada notícia desse tipo, pipocaram nas redes os sermões de sempre, aquele coro afinado de moralistas de sofá que jamais arriscaram a própria pele em nada e que, ainda assim, se acham qualificados para auditar o orçamento dos outros.
Olha, me diz uma coisa: por que é tão difícil para certa gente aceitar que existe quem ganhou o próprio dinheiro e tem o direito sagrado de gastá-lo como bem entender? A resposta é desconfortável e por isso ninguém quer dizer em voz alta. É inveja, fantasiada de virtude social. É a velha pulsão igualitária que, incapaz de elevar o invejoso, exige rebaixar o invejado. Como o vizinho não tem o carro, o piloto não pode ter; como o jornalista de redação não chegou ao pódio, ninguém pode usufruir do pódio em forma de motor V12. É a ética do ressentimento vestida de preocupação humanitária, e funciona mais ou menos assim: enquanto houver pobre no mundo, ninguém pode ter nada, exceto, claro, os iluminados que pregam a doutrina, que esses sempre encontram um jeito de ter.
O que esse tipo de moralismo não enxerga, ou finge não enxergar, é o detalhe operacional do gasto. Cada centavo daqueles cinquenta e sete milhões irriga uma cadeia produtiva inteira: engenheiros, mecânicos especializados, fornecedores de couro, pintores, eletricistas automotivos, transportadoras, despachantes, seguradoras, oficinas de manutenção, museus particulares, leiloeiros, restauradores. O capital de Alonso não some num cofre, circula. Vira salário, vira jantar de família de operário italiano, vira mensalidade de escola de filho de mecânico inglês. O carro caro é, na prática, redistribuição voluntária; o imposto pesado, ao contrário, é redistribuição compulsória que perde metade no caminho dentro da máquina pública. Mas isso o moralista não conta porque destruiria a peça de teatro.
Existe ainda outro nível, mais profundo, que poucos têm coragem de tocar. A capacidade humana de produzir objetos belos, raros, tecnicamente milagrosos como esses hipercarros artesanais é fruto direto da civilização que elevou a engenharia à categoria de arte. Sociedades igualitárias forçadas, aquelas em que ninguém pode brilhar para que todos pareçam iguais, jamais produziram nada parecido. Produziram fila para pão, Trabant fumegante e apartamento de cinquenta metros quadrados para a família inteira. Quem destrói a possibilidade do luxo extremo destrói também o vetor que puxa toda a indústria para cima, porque é a Ferrari única que financia, indiretamente, o motor mais eficiente do carro popular daqui a dez anos. Sempre foi assim, sempre será.
E há, por fim, a questão moral que ninguém quer discutir nesses tempos de virtude sinalizada em rede social. Alonso não roubou o dinheiro do contribuinte, não recebeu emenda parlamentar, não foi premiado com isenção fiscal customizada por padrinho político, não administra estatal deficitária, não vive de palestra paga por banco público. Ele pilota, ganha do mercado livre que escolhe pagá-lo porque ele entrega resultado, e gasta como quer. Esse é o sujeito que o moralista deveria celebrar, não atacar. O verdadeiro escândalo brasileiro não é o carro de cinquenta e sete milhões comprado por um piloto espanhol; é o palácio de centenas de milhões pago com imposto e ocupado por gente que nunca produziu nada além de discurso.
No fim, o caso Alonso é um teste de Rorschach. Quem olha para a notícia e vê ostentação ofensiva está confessando, sem perceber, que aceita o pressuposto coletivista de que o sucesso individual é uma agressão ao grupo. Quem olha e vê apenas um homem livre desfrutando do fruto do próprio trabalho está, ainda que não saiba, defendendo a única ordem civilizacional que já tirou bilhões de seres humanos da miséria. A inveja se veste de muitas roupas, mas o corpo embaixo é sempre o mesmo. Quando o invejoso vence o produtor, a sociedade inteira empobrece, e descobre tarde demais que destruir o rico nunca enriqueceu o pobre.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.