A SmartStop Self Storage, dona de uma rede de galpões nos Estados Unidos e Canadá onde as pessoas guardam o que não cabe mais em casa, anunciou dividendo mensal de US$ 0,13 por ação referente a junho. Treze centavos. Multiplicado por quantas ações você tiver, pago em moeda forte, depositado com a pontualidade enfadonha de quem opera num ambiente onde contrato ainda vale alguma coisa. Não houve pronunciamento em rede nacional, não houve comissão, não houve audiência pública. Houve apenas um conselho de administração comunicando ao mercado o que combinou com ele.

Repare no detalhe que ninguém comenta. O negócio em questão é literalmente alugar parede e cadeado para gente estocar geladeira velha, caixa de papelão e a bicicleta que o filho não usa mais. Não é inteligência artificial, não é fusão nuclear, não é o próximo unicórnio com nome em inglês. É o varejo mais entediante que se pode imaginar. E mesmo essa coisa entediante, quando deixada em paz pelo legislador criativo, produz fluxo de caixa suficiente para distribuir dólares todo mês. A lição que o palanque despreza é exatamente essa: riqueza não nasce de decreto, nasce de gente atendendo necessidade alheia sem precisar pedir permissão para isso.

Agora siga o dinheiro pelo lado de cá. O sujeito que mora em Curitiba e quer participar dessa banalidade lucrativa precisa, antes de qualquer coisa, transformar real em dólar pagando IOF, depois passar por corretora, depois declarar à Receita, depois recolher imposto sobre o dividendo que já foi tributado lá fora, depois preencher carnê-leão, depois rezar para não cair em malha fina. Cada etapa dessa é um pedágio cobrado por gente que não construiu galpão nenhum, não atendeu cliente nenhum, não correu risco nenhum. A burocracia brasileira descobriu o segredo da alquimia ao contrário: transformar produtividade alheia em folha de pagamento própria.

Enquanto isso, o cidadão é convencido todo santo dia de que precisa do governo para investir, do governo para se aposentar, do governo para ter casa, do governo para ter empresa, do governo para ter coragem. O resultado dessa tutela está estampado no extrato bancário de qualquer trabalhador honesto: poupança que perde para a inflação, previdência que promete miséria, título público que financia gastança alheia. A mesma pessoa que é tratada como incapaz de escolher um fundo imobiliário consegue, sozinha, sustentar marido, três filhos, mãe doente e o vereador do bairro. Curioso como a incapacidade é seletiva.

Há ainda o aspecto cultural da coisa, que costuma escapar dos relatórios de banco. O americano médio guarda tralha num galpão porque acumulou tralha suficiente para precisar de galpão, e acumulou tralha porque produziu valor suficiente para comprar tralha. O brasileiro médio sonha com galpão para guardar a tralha que ainda não pôde comprar porque metade do que ganhou foi para sustentar uma máquina pública que se reproduz como bactéria em placa de Petri. Não é falta de talento, não é falta de vontade, não é falta de Deus. É excesso de Brasília, de assembleia legislativa, de câmara municipal, de conselho fiscalizador, de agência reguladora, de tudo aquilo que vive de existir e cobrar por existir.

Treze centavos por ação parece pouco até você perceber que é treze centavos a mais do que qualquer ministro vai depositar na sua conta este mês sem antes tirar trinta de você. O mercado livre não promete paraíso, promete previsibilidade. E previsibilidade, num país onde até o calendário fiscal é instável, virou artigo de luxo importado. Quem ainda acha que liberdade econômica é assunto de rico precisa olhar para esse cheque modesto vindo de um galpão em Phoenix e perguntar por que ele não pode ser emitido em Sorocaba. A resposta, todo mundo sabe, mora num CEP da Esplanada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.