O presidente do INSS foi demitido. A notícia soa como solução, mas é o inverso disso: é a prova de que o sistema funcionou exatamente como foi desenhado para funcionar. Gilberto Waller saiu depois de onze meses no cargo, com 2,7 milhões de pessoas ainda enfileiradas esperando por aposentadorias, pensões e benefícios que, diga-se de passagem, foram compulsoriamente pagos ao longo de décadas por esses mesmos brasileiros que agora esperam sentados. A pergunta que nenhuma assessoria de imprensa vai responder é simples: quem responde por esses 2,7 milhões? A resposta já se sabe: ninguém.
A versão oficial diz que Waller caiu porque não reduziu a fila. Isso é o que se vê. O que não se vê é que a queda veio acoplada ao encerramento da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investigava as fraudes no órgão, comissão que terminou sem relatório aprovado, sem culpados formais, sem consequência alguma para os responsáveis por um esquema que desviou dinheiro de aposentados ao longo de anos. A coincidência entre o fim da CPMI sem resultado e a troca do presidente é o tipo de dado que desaparece nos resumos de dois parágrafos, mas que explica tudo sobre como o poder se organiza para sobreviver aos próprios escândalos.
Há também a questão das brigas internas, tratadas como detalhe folhetinesco pela imprensa comportada. Waller e o ministro Wolney Queiroz não se entendiam. O presidente do INSS queria afastar uma servidora; o ministério resistia. O resultado foi onze meses de paralisia administrativa no órgão que cuida da previdência de mais de 40 milhões de brasileiros. Duas figuras nomeadas politicamente, travadas numa disputa de poder burocrático, enquanto a fila crescia. Isso não é falha de gestão. É o funcionamento natural de um aparato que nunca foi construído para servir ao segurado, mas para ser moeda de troca entre facções do governo. Quem imaginou que seria diferente desta vez não conhece a espécie.
A substituta, Ana Cristina Silveira, vem apresentada como servidora de carreira, como se isso fosse garantia de algo. O argumento é curioso: depois de anos com nomeados políticos destruindo o órgão, a solução é uma servidora que até fevereiro deste ano presidia o Conselho de Recursos da Previdência Social. Ou seja, alguém que estava no sistema o tempo todo, enquanto a fila estourava e a fraude corria solta. O currículo impressiona menos quando se observa onde ela estava enquanto tudo isso acontecia. Mas a narrativa de "servidora de carreira" tem a vantagem de soar técnica e apolítica, que é exatamente o véu que um governo precisa numa véspera eleitoral para cobrir o que não quer que apareça.
E o timing eleitoral não é detalhe periférico. A própria notícia menciona que a fila ainda estava alta "principalmente por causa da proximidade com o início da campanha eleitoral". Traduzindo para o vernáculo: a previdência social de 40 milhões de brasileiros é administrada com um olho no segurado e outro no calendário partidário. Cada benefício liberado perto da eleição tem nome e sobrenome político. Cada demissão de presidente inconveniente acontece no momento mais útil para quem manda. O aposentado que espera há meses não é prioridade, é instrumento. Há impérios que ruíram por tratar seus cidadãos assim, e todos acharam que era diferente até o último momento.
A conta final é esta: a fraude bilionária investigada pela CPMI não gerou um único condenado. A comissão terminou sem relatório. O presidente do INSS foi trocado como se fosse a peça com defeito numa máquina perfeita. A nova presidente tomou posse com a missão declarada de "reduzir a fila", o mesmo objetivo que o anterior não cumpriu. E os 2,7 milhões de brasileiros que pagaram a vida inteira para ter direito a um benefício continuam esperando que alguém, algum dia, trate a previdência deles como direito e não como favor. Trocar quem administra o problema não é resolver o problema. É administrar a aparência de quem administra o problema.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.