Começam nas águas filipinas mais uma daquelas rodadas de exercícios militares com nome pomposo, participação americana e aliados japoneses, australianos e sul-coreanos fazendo figuração. O enredo é sempre o mesmo: testar prontidão no "mundo real", demonstrar força, enviar recado a Pequim. A encenação é digna de Hollywood, os comunicados oficiais falam em "interoperabilidade" e "segurança regional", e a plateia assiste de longe achando que aquilo é política externa. Não é. É logística de império financiada por contribuintes que jamais votaram para sustentar bases em ilhas cujo nome mal sabem pronunciar.

Olha, quando se fala em prontidão militar, convém lembrar de uma lei econômica que nenhum general consegue revogar: todo dólar gasto em manobra é dólar arrancado de alguma outra finalidade produtiva. O porta-aviões que atravessa o Mar do Sul da China custa uma escola, um hospital, uma fábrica que não vai existir. Esse é o lado visível da coisa. O lado invisível, que ninguém comenta, é o desvio permanente de capital privado para o complexo industrial militar, um arranjo no qual fornecedores de armamento, think tanks de Washington e parlamentares de estados produtores vivem numa simbiose que faria corar qualquer barão do mercantilismo do século XVIII.

Me diz uma coisa, quem lucra com exercício militar? Siga o dinheiro e você chega rápido aos nomes de sempre. Empreiteiras do Pentágono faturam contratos de manutenção, munição, combustível, logística. As Filipinas, país cronicamente endividado, recebem "ajuda" em forma de equipamento obsoleto americano que amanhã precisará de peças americanas, treinamento americano, atualizações americanas. É o velho truque do traficante que oferece a primeira dose de graça. Manila sai da manobra mais dependente do que entrou, e isso não é efeito colateral, é o produto.

A narrativa oficial vende dissuasão, mas o que se vê é escalada gerenciada. China constrói ilha artificial, Washington responde com exercício, Pequim responde com manobra própria, Tóquio aumenta orçamento militar, Seul compra caça, Canberra encomenda submarino nuclear. Cada movimento justifica o próximo, e o mercado de armas agradece. É o ciclo perfeito para quem vive de tensão, pésssimo para quem vive de comércio pacífico, que por acaso é a imensa maioria dos seres humanos do planeta. A paz não rende dividendo trimestral, não gera contrato plurianual, não preenche relatório anual de acionista.

Quer dizer, no fundo, o que esses exercícios revelam é a falência intelectual de uma política externa que só sabe funcionar em modo confronto. Nenhum burocrata de Washington ou Pequim possui o conhecimento distribuído entre os milhões de comerciantes, pescadores, armadores e empresários que atravessam o Pacífico todos os dias sem pedir licença a almirante nenhum. Eles cooperam espontaneamente porque têm interesse próprio em cooperar. Os governos, esses sim, precisam fabricar inimigos para justificar seus orçamentos, porque sem inimigo a estrutura inteira perde sentido e muita gente importante perderia o emprego.

No fim, a prontidão testada nessas manobras é a prontidão do contribuinte em seguir pagando sem reclamar. O "mundo real" a que os comandantes se referem é aquele em que o Estado decide por você quem é o inimigo, quanto vai custar combatê-lo, e por quanto tempo. Enquanto isso, o mundo real de verdade, o das pessoas trabalhando e trocando, segue funcionando apesar dos exércitos, não graças a eles. Bandeira hasteada, orçamento aprovado, próxima manobra já marcada no calendário. A festa continua, a conta também.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.