A Fireworks AI, uma empresa que a maioria do leitor jamais ouviu falar, está em conversas avançadas para levantar uma nova rodada de capital com avaliação que orbita os quinze bilhões de dólares. Para quem não está acompanhando o festival de absurdos do setor, isto significa que uma startup fundada em 2022, que vende infraestrutura para rodar modelos de inteligência artificial de código aberto, vale hoje, no papel, mais do que companhias centenárias com fábricas reais, funcionários reais e lucros reais. Quer dizer, vale segundo quem? Segundo o cartel de fundos de venture capital que precisa justificar a alocação bilionária dos seus cotistas, claro.

O truque é antigo, só muda a roupagem. Há vinte e cinco anos era ponto-com, há quinze era rede social, há dez era blockchain, há cinco era metaverso, agora é IA generativa. A regra do jogo permanece intacta: levanta-se capital colossal de fundos soberanos, family offices e endowments universitários, infla-se o valuation em rodadas sucessivas com os mesmos atores comprando uns dos outros, e quando a música parar, quem ficou sem cadeira são os fundos de pensão e os investidores do varejo que entraram na festa pelo IPO. Os early backers já saíram ricos. Sempre saem.

Olha, ninguém aqui é contra inovação. O mercado livre é precisamente o sistema que premia a inovação genuína, aquela que entrega valor mensurável a um consumidor disposto a pagar do próprio bolso. O problema é que o que se vê neste tipo de operação não tem absolutamente nada de mercado livre. É capital subsidiado por uma política monetária que durante mais de uma década manteve juros artificialmente baixos, gerando uma massa de liquidez procurando desesperadamente onde se alojar. Esse dinheiro fácil não veio do céu, veio da impressora do banco central, e produziu exatamente o que sempre produz: ativos inflados, projetos sem viabilidade econômica real, e a ilusão coletiva de que árvores crescem até o céu.

Me diz uma coisa, quantas dessas startups com avaliação superior à de uma siderúrgica de verdade conseguem demonstrar lucro operacional? A esmagadora maioria queima caixa numa velocidade espantosa, mantida viva apenas pela próxima rodada de captação. É um esquema piramidal sofisticado, com terno italiano e palestra no Web Summit, mas a aritmética é a mesma do João do bar que pega emprestado com Maria para pagar Pedro. Quando o crédito barato acabar, e ele sempre acaba, vai sobrar muita gente segurando equity que vale o preço do papel onde está impressa.

O detalhe quase cômico é que a Fireworks AI vive de servir modelos open source, ou seja, sua vantagem competitiva é a velocidade de execução sobre uma tecnologia que qualquer concorrente pode replicar. Quinze bilhões de dólares por um intermediário tecnológico cuja barreira de entrada é, na prática, ter dinheiro suficiente para comprar GPUs da Nvidia. É a definição clássica de um negócio commoditizado tentando se vender como sendo uma fortaleza. E haverá quem compre, porque na fase terminal de toda bolha o que sobra de raciocínio é trocado por medo de ficar de fora.

O final desta história já foi escrito muitas vezes na história econômica e ninguém aprende. Quando a maré do dinheiro fácil baixar, vamos descobrir quem estava nadando pelado, e o espetáculo não será bonito. Enquanto isso, a festa segue, com os mesmos sócios brindando entre si e jurando que desta vez é diferente. Nunca é.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.