A Fitch reafirmou nesta semana o rating soberano dos Emirados Árabes Unidos em AA- com perspectiva estável, e o detalhe que escapa ao leitor distraído é o contexto: o país está formalmente em conflito com o Irã, mísseis circulam pelo Estreito de Ormuz e ainda assim a agência olhou para os números e disse que aquela dívida é tão segura quanto a de uma democracia europeia média. Quer dizer, no fim do dia, o que define a confiança de quem empresta dinheiro não é o noticiário das oito, é o balanço patrimonial. E o balanço dos Emirados está obsceno de saudável.
Olha, é instrutivo comparar. Reservas soberanas que ultrapassam com folga vários múltiplos do PIB anual, dívida pública baixíssima, superávit em conta corrente que parece erro de digitação para olhos brasileiros, e uma estrutura fiscal que entendeu cedo uma coisa que aqui ainda não aprendemos: o petróleo acaba, o fundo soberano não. Enquanto regimes que se proclamam defensores do povo torram cada barril em programa eleitoral, os xeques converteram receita extrativa em capital permanente. Não é virtude moral, é aritmética básica. E aritmética básica, quando aplicada com disciplina por décadas, vira couraça contra qualquer guerra.
Me diz uma coisa, o que faz um país aguentar bombardeio sem que o juro dispare? Não é discurso, não é ONU, não é solidariedade internacional. É reserva em dólar, é poupança real, é não dever a ninguém. Os Emirados podem perder refinaria, podem perder rota marítima, podem perder até temporariamente a confiança do turista, e ainda assim pagam o cupom da dívida no dia do vencimento sem precisar pedir nada a ninguém. Essa é a verdadeira soberania, a que se mede em saldo bancário, não em hino patriótico.
E aqui mora a lição que ninguém quer aprender. Os mesmos analistas que tratam o gasto público como remédio para tudo, que defendem expansão fiscal a cada espirro da economia, que riem da austeridade como se fosse coisa de avarento, são os que ficam mudos quando uma agência de risco premia exatamente o oposto do receituário que pregam. Porque o mercado, esse organismo distribuído que ninguém comanda, julga país pelo que ele faz, não pelo que diz. E o que os Emirados fizeram foi gastar menos do que arrecadaram, ano após ano, década após década, enquanto vizinhos se afogavam em populismo subsidiado.
Há ainda o ângulo que a imprensa brasileira tem horror de tocar. Os Emirados não são uma democracia liberal nos moldes ocidentais, e mesmo assim atraem capital, sediam empresas, recebem migração qualificada e tocam projetos de infraestrutura que aqui levariam três gerações. Não é endosso ao regime, é constatação desconfortável: investidor não vota com bandeira, vota com retorno ajustado a risco. Onde há previsibilidade jurídica, baixa tributação e respeito a contrato, o dinheiro vai. Onde há insegurança regulatória, voracidade fiscal e tribunal politizado, o dinheiro foge, mesmo que o presidente sorria na capa da Time.
O Brasil deveria estudar este caso emoldurado na parede de cada ministério. Um país do tamanho de uma capital paulista, sem democracia funcional pelos nossos critérios, em guerra declarada, mantém grau de investimento equivalente ao de potências europeias. Nós, continentais, autodeclarados gigantes pela própria natureza, brigamos eternamente para arrancar um upgrade migalha de qualquer agência. A diferença não está no tamanho, está na disciplina. E disciplina fiscal, ao contrário do que prega o catecismo desenvolvimentista, não empobrece país nenhum; o que empobrece é a festa que vem antes da ressaca. Os Emirados não estão em festa. Estão em obra. Por isso o rating segue intacto enquanto os mísseis voam.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.