O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato a algo que ninguém sabe direito o quê, resolveu nesta semana fazer aritmética eleitoral em voz alta. Falou em governar por até oito anos. Pouco tempo atrás, o mesmo personagem acenava elegantemente com a bandeira do fim da reeleição, posando de republicano envergonhado do continuísmo alheio. Agora descobre, com a serenidade de quem encontra dinheiro no bolso do casaco velho, que oito anos talvez sejam pouco para concluir a obra. A obra, claro, nunca é especificada. Mas o cronograma é firme.
Vale parar um instante e olhar para o que está sendo dito sem que se diga. Quando um político trata o cargo público como horizonte pessoal de planejamento de longo prazo, ele já confessou, sem perceber, a doença que diagnostica nos adversários. A reeleição é abominável quando o vizinho quer, e providencial quando a família precisa. Esse tipo de coerência elástica não é exclusividade da casa, é regra geral do ofício, mas quando vem embrulhada em discurso moralista fica mais engraçado, porque o ridículo é gratuito e o eleitor é que paga a entrada.
Há algo mais profundo aqui, e convém não desviar o olhar. O sobrenome virou ativo. Não no sentido figurado, no sentido contábil mesmo. Existe uma estrutura inteira, com gabinetes, assessores, fundos partidários, tempo de televisão, espaço em redes, financiamento público disfarçado de estatuto, que depende da continuidade da marca familiar no mercado eleitoral. Falar em oito anos não é projeto de país, é plano de negócios. E plano de negócios financiado, lembre-se sempre, pelo dinheiro que o senhor não viu sair da sua conta porque saiu antes, retido na fonte, embutido no preço do pão, escondido no IPTU, diluído na conta de luz.
O detalhe saboroso é o timing. O aceno contra a reeleição foi feito quando convinha parecer austero. A projeção de oito anos chega quando convém parecer inevitável. Entre uma coisa e outra não houve conversão filosófica, houve pesquisa de opinião. Político profissional não muda de ideia, ajusta a embalagem. E essa engenharia de posicionamento, repetida à exaustão por todos os lados do espectro, é exatamente o que produz no eleitor aquela sensação crônica de estar sendo enrolado por gente que sorri demais. A sensação está correta. O problema é confundi-la com fenômeno isolado de uma família, quando se trata de patologia estrutural do sistema.
Quem acompanha a coisa sem paixão clubística percebe que o debate sobre reeleição, mandato de quatro, cinco, seis ou oito anos, é uma cortina de fumaça luxuosa. Enquanto se discute a duração da hospedagem, ninguém pergunta o tamanho do hotel, o preço da diária e quem está pagando o minibar. O Estado brasileiro consome quase metade de tudo que se produz no país e devolve, em troca, escola que não ensina, hospital que não atende, segurança que não protege e estrada que não dura um inverno. Diante desse balanço, discutir se o gerente fica quatro ou oito anos é discussão de funcionário, não de dono. E o dono, teoricamente, é o senhor.
O que essa fala revela, no fundo, é que a classe política brasileira, da extrema esquerda à extrema direita, opera dentro do mesmo pressuposto não declarado: o poder é deles, o tempo é deles, e o povo é convidado a opinar de quatro em quatro anos sobre qual rosto ocupará a cadeira que já está vendida. Mudar esse arranjo não se faz com voto em sobrenome, faz-se desidratando o aparelho que torna o sobrenome rentável. Enquanto o Estado for esse balcão generoso, sempre haverá alguém calculando, em rede nacional, quantos anos precisa para terminar de servir a si mesmo.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.