O vídeo chegou com ares de escândalo: famílias brasileiras sufocadas por dívidas, o peso das contas, o rosto de quem não fecha o mês. Flávio Bolsonaro, pré-candidato pelo PL, usa as imagens para atacar Lula e o governo atual. Justo. O problema, pequeno mas fatal, é que aquelas imagens foram gravadas em 2021, quando o presidente da República se chamava Jair Bolsonaro, pai do autor do vídeo. A crítica pode ser legítima. A peça, não.

Existe uma espécie de prestidigitação que a classe política brasileira pratica com maestria e sem vergonha: tomar o sofrimento real de pessoas concretas, embalá-lo em narrativa conveniente e entregá-lo como argumento eleitoral. O endividamento das famílias não é invenção de Lula nem era problema inexistente em 2021. É uma condição estrutural do país, alimentada por juros obscenos, tributação confiscatória e uma moeda que perde valor com a regularidade de um relógio defeituoso, independentemente de quem habita o Planalto. Usar esse sofrimento como munição é válido. Fingir que ele começou com o adversário é mentira.

O que o episódio revela vai além do erro de assessoria ou da preguiça de uma equipe que reutilizou arquivo sem verificar a data. Revela a lógica profunda da política como teatro de marionetes: o que importa não é o argumento verdadeiro, mas o argumento que funciona. Se a imagem da família endividada comove em 2026 tanto quanto comovia em 2021, por que gastar dinheiro gravando de novo? O público não vai checar. A imprensa vai noticiar a reação dos governistas, não o mérito. E a engrenagem gira. O endividado continua endividado, mas agora serve de cenário para duas campanhas simultâneas.

Os "governistas" que reagiram com indignação merecem igual ceticismo. A reação não é defesa da verdade, é defesa do território. Se o problema do endividamento familiar é real, e é, a pergunta que o governo Lula deveria responder é: o que mudou para melhor? Juros básicos acima de 13% ao ano, carga tributária entre as maiores do planeta, inflação que corrói o salário antes de chegar ao mercado, crédito caro para quem trabalha e barato para quem tem padrinho. Reagir ao vídeo errado não apaga a situação certa.

Há uma ironia mais funda que o episódio expõe sem querer. O país que produziu aquelas famílias endividadas das imagens de 2021 é o mesmo país de 2026, com os mesmos mecanismos de transferência de renda para cima via inflação e tributação, com a mesma arquitectura financeira que pune o assalariado e subsidia o bem-relacionado. Governos trocam, o sistema permanece. O filho critica o que o pai não desmontou. O opositor denuncia o que o governo não consertou. E a família do vídeo, fosse gravado hoje ou há cinco anos, continua devendo.

A pergunta que ninguém faz, porque a resposta é inconveniente para todos os lados, é simples: por que o brasileiro médio precisa de crédito para sobreviver o mês? Não para comprar luxo. Para fechar o básico. A resposta passa por um Estado que consome mais de 35% do PIB sem entregar serviços proporcionais, por um sistema tributário que tributa o consumo dos pobres para financiar as regalias dos servidores, por uma política monetária que usa o trabalhador como variável de ajuste. Isso não é culpa de Lula nem foi culpa de Bolsonaro. É a lógica do arranjo, e nenhum dos dois tinha intenção real de mudá-la.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.