Flávio Bolsonaro pediu, em tom paternal, que os bolsonaristas parem com as provocações internas. Nikolas Ferreira, do alto dos seus milhões de seguidores, reclamou que tem gente "minando a própria base". Em qualquer país sério, isso seria fofoca de bastidor irrelevante. No Brasil de 2026, com a economia patinando, o dólar inquieto e a conta fiscal estourando pelas costuras, é manchete de Valor Econômico. E o motivo é simples, embora ninguém queira dizer em voz alta, a oposição que deveria estar mirando o Planalto está mirando o próprio pé.

Olha, é um espetáculo digno de tragédia grega de quinta categoria. O grupo que se vendeu como antiestablishment passa as manhãs discutindo qual influencer ofendeu qual senador, qual deputado curtiu qual postagem, quem é mais puro, quem é mais autêntico, quem traiu a "verdadeira" causa. Enquanto isso, o governo do PT segue empurrando o Estado para dentro de cada esquina da vida econômica, criando ministérios, inflando a folha, blindando a Petrobras de qualquer racionalidade e tratando a Selic como inimiga pessoal do desenvolvimento. A pauta econômica, que deveria ser o caixão político da gestão atual, virou nota de rodapé porque a oposição preferiu fazer reality show.

Quer dizer, alguém aqui ouviu nas últimas semanas algum desses líderes da direita falar de forma articulada sobre o arcabouço fiscal furado, sobre os R$ 2,5 trilhões que o Estado brasileiro consome todo ano, sobre o fato de que o brasileiro médio trabalha até maio só para pagar tributo? Não. Ouviu sobre quem provocou quem no Twitter. E essa é exatamente a estratégia que mantém a esquerda no poder há décadas, manter o adversário ocupado com circo enquanto se redistribui pão, contratos, cargos e sinecuras pela porta dos fundos. Siga o dinheiro e você verá que, enquanto a base bolsonarista briga sobre estética, BNDES desembolsa, Caixa libera, fundo eleitoral engorda e ministério novo é assinado.

O fenômeno tem nome antigo, vaidade transformada em estratégia política. Cada um desses personagens construiu uma marca pessoal nas redes que vale mais para ele, individualmente, do que qualquer projeto coletivo de país. O senador quer 2026, o deputado quer 2030, o pastor quer o Senado, o ex-ministro quer relevância. E como o mercado de atenção premia conflito, escândalo e lacração, todos se sentem incentivados a brigar entre si, porque é mais barato ganhar engajamento batendo no aliado distraído do que enfrentando o adversário organizado. O resultado é uma direita que ladra para dentro e geme para fora.

Há ainda algo mais profundo nessa novela. Movimento que se acostumou a se definir pela negação, contra Lula, contra o STF, contra a esquerda, contra a mídia, descobre, no momento em que precisa propor algo, que não tem unidade doutrinária. Liberalismo econômico de verdade, com corte de gasto, privatização ampla, desregulamentação séria, fim de subsídio, é tema que faz sumir a maioria desses caciques. Conservadorismo cultural com substância filosófica, idem. O que sobra é populismo de direita, que é primo distante do populismo de esquerda, e quando dois primos populistas se encontram sem programa, brigam por território de vaidade. É o que se vê.

O eleitor que ainda acredita em liberdade econômica, em Estado mínimo, em propriedade privada respeitada e em moeda forte, esse eleitor olha para o circo e pergunta, com toda razão, em quem votar. A resposta honesta é desconfortável, talvez em ninguém, ainda. Porque líder político sério não desperdiça munição em fogo amigo quando o inimigo está construindo trincheira no Planalto. E quem confunde rede social com estratégia política está apenas cumprindo um papel útil, o de garantir que o atual governo durma tranquilo até 2027. Provocação interna é luxo de quem já venceu, ou de quem já desistiu de vencer.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.