A Flowco Holdings, empresa de tecnologia para produção de petróleo e gás listada na bolsa de Nova York, anunciou a indicação de Hardy Murchison para o seu conselho de administração. O nome não caiu de paraquedas; Murchison é figura conhecida do circuito energético americano, com passagens por fundos de private equity especializados em ativos de óleo e gás, e a empresa vende a chegada dele como reforço de "expertise estratégica". Quem leu três releases do setor já entendeu o roteiro: troca-se um sobrenome por outro, recicla-se o mesmo currículo, e o investidor de varejo é convidado a aplaudir uma novidade que não é novidade alguma.
Olha, conselho de administração nos Estados Unidos, e cada vez mais por aqui, virou uma espécie de clube de reciprocidades onde os mesmos vinte ou trinta nomes circulam entre as mesmas vinte ou trinta empresas. O sujeito senta no conselho da A, que tem participação cruzada com o fundo da B, que aporta na C, onde o cunhado está no comitê de auditoria. Chamam isso de governança corporativa. Eu chamo de cartório com gravata. A teoria diz que o conselho fiscaliza a diretoria em nome dos acionistas; a prática mostra que conselho fiscaliza diretoria do mesmo jeito que síndico fiscaliza zelador que ele mesmo contratou.
Quer dizer, ninguém aqui está acusando Murchison de nada. O problema não é o homem, é o arranjo. Quando você tem uma indústria capital intensiva, dependente de regulação federal, de licenças ambientais, de contratos de longo prazo com majors e de financiamento estruturado por bancos de investimento, o mercado de talentos para conselhos não é um mercado, é uma confraria. Você não contrata o melhor; você contrata quem já está dentro. E quem está dentro tende a olhar para os outros que estão dentro com a mesma generosidade com que olha para o próprio espelho.
O que se vê é o release elogioso, a foto institucional, a cotação que sobe meio por cento na abertura. O que não se vê é o pequeno acionista que continua sem voz nas decisões que importam, é o capital que se aloca conforme rede de relacionamentos em vez de mérito operacional, é o custo difuso de uma cultura corporativa onde a fiscalização interna virou ritual. Toda vez que o setor de energia faz uma dessas indicações, o preço das ações reage como se estivesse diante de um milagre. Daqui a três trimestres, quando o resultado vier morno, ninguém vai lembrar que a chegada do "estrategista experiente" foi vendida como inflexão.
E tem o pano de fundo, que é o mais interessante. A Flowco opera num setor onde cada decisão de capex depende de premissas sobre juros longos, sobre política energética, sobre subsídios cruzados a renováveis e sobre o humor regulatório de Washington. Em outras palavras, opera num mercado em que o Estado define metade das variáveis e o mercado precifica a outra metade torcendo para o Estado não mudar de ideia. Conselheiros com trânsito em Washington, com networking em fundos soberanos do Golfo, com tempo de casa em Houston, valem ouro nesse ambiente, não porque entendam de óleo, mas porque entendem do balcão. É a velha história: numa economia genuinamente livre, o que importa é descobrir petróleo barato; numa economia tutelada, o que importa é conhecer quem assina a licença.
No fim das contas, a notícia diz menos sobre a Flowco e mais sobre o estado da governança corporativa moderna, esse teatro elegante onde acionistas minoritários pagam ingresso, executivos sentam na plateia VIP, e conselheiros entram e saem do palco como atores de elenco fixo. Quando alguém te disser que a chegada de fulano ao conselho vai destravar valor, sorria, anote a data, e cobre a promessa em três anos. Conselho não cria riqueza; quem cria riqueza é quem opera. O resto é coreografia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.