A Flowserve, empresa que ninguém menciona em jantar mas cujas bombas movem metade da indústria pesada do planeta, vai ao mercado e pega meio bilhão de dólares emprestado com prazo de onze anos. A imprensa financeira registra o fato com a mesma emoção com que se anota a previsão do tempo. E é exatamente aí que mora o problema, porque a normalização do endividamento corporativo de longuíssimo prazo é uma das maiores anomalias monetárias da nossa geração, e quase ninguém quer enxergar.
Pense bem no que está sendo combinado. Investidores institucionais, fundos de pensão, gestoras de ativos, todos aceitam entregar dinheiro hoje em troca de uma promessa de receber em 2036, num cupom que precifica uma inflação americana que o próprio Tesouro dos Estados Unidos não consegue projetar para o ano que vem. Se a moeda em que essa dívida está denominada perdeu trinta por cento do poder de compra na última década, o que dizer do que vai sobrar do principal quando a nota vencer? A resposta honesta seria desconfortável demais para um relatório de research.
Há uma trilha aqui que vale a pena seguir. A Flowserve não está pegando esse dinheiro porque tem uma oportunidade extraordinária de expansão que justifica o custo financeiro. Está pegando porque o custo financeiro, ajustado pela expectativa de que a impressora não vai parar, é praticamente subsídio. Quando o juro real é manipulado para baixo durante anos a fio pelo banco central, toda empresa de capital aberto vira refém de uma matemática perversa: ou se endivida e cresce artificialmente, ou seu concorrente faz isso e a engole. O capitalismo virou competição de quem aguenta mais tempo na corda bamba do crédito barato.
E quem paga a conta dessa farra de papel? O aposentado que tem suas reservas num fundo que comprou esses títulos achando que estava sendo prudente. O pequeno poupador americano que vê seu dólar valer menos a cada trimestre. O brasileiro que importa equipamento industrial e descobre que o preço subiu sem que ninguém saiba explicar direito por quê. A engenharia financeira que parece elegante no comunicado oficial é, no fundo, uma transferência silenciosa de riqueza de quem produz e poupa para quem se endivida e especula.
O que ninguém quer admitir é que emissões assim só fazem sentido num mundo onde todos os participantes apostam, sem dizer em voz alta, que a moeda vai continuar derretendo num ritmo previsível e administrável. É um cassino organizado em que a casa, o banco central, garante a quem joga certo. Quando essa premissa quebra, e ela sempre quebra, o nome elegante para o que acontece é crise sistêmica. O nome honesto é o despertar de quem aceitou viver de ficção contábil por tempo demais.
A próxima vez que ler que tal empresa precificou tantos milhões de dólares em notas com vencimento daqui a uma década, traduza mentalmente: mais um pedaço da economia real foi hipotecado para sustentar a ilusão de que o dinheiro de papel pode ser fabricado eternamente sem consequências. A conta vem. Sempre vem. E nunca paga quem assinou o contrato.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.