A Gazprom anunciou a parada do TurkStream para manutenção programada, e de repente os mesmos diplomatas que passaram a década jurando libertar o continente da dependência russa estão consultando planilhas de estoque de gás como quem reza terço. O duto que atravessa o Mar Negro, da Rússia até a Turquia, e dali alimenta Hungria, Sérvia e parte dos Bálcãs, virou nos últimos anos a última artéria oficial pela qual Moscou ainda bombeia metano para dentro da União Europeia. Cortaram Nord Stream a explosivo, fecharam a rota ucraniana com pompa moral, e ficaram com este aqui, que ninguém ousa tocar porque é justamente o que mantém os fogões acesos.
Olha o tamanho da contradição. Bruxelas aprovou pacote atrás de pacote de sanções, financiou terminais de GNL às pressas, subsidiou hidrogênio verde que ninguém sabe produzir em escala, e mesmo assim continua comprando molécula russa via Turquia com nome trocado e nota fiscal lavada. A manutenção de hoje é técnica, dizem. Pode ser. Mas o mercado spot já reagiu, os contratos futuros subiram, e Viktor Orbán dorme com um olho aberto porque sabe que metade da Hungria esquenta com este duto. Aqui está a tal sabedoria do planejamento central energético, em três atos, com plateia pagando ingresso na conta de luz.
Siga o dinheiro, que é onde a história sempre se confessa. Quem ganhou com a destruição da infraestrutura de gás barato? Os exportadores americanos de GNL, que multiplicaram receita vendendo gás liquefeito a preço de champanhe para alemães que antes pagavam preço de cerveja. Ganharam os operadores de terminais flutuantes, contratados em regime de urgência sem licitação séria. Ganharam os consultores de transição energética, classe nova de aristocratas do PowerPoint. Quem pagou? A indústria química alemã que está fechando fábrica, a siderurgia que migra para o Texas, a dona de casa polonesa que viu a fatura triplicar, o aposentado italiano que aprendeu a passar o inverno de casaco dentro de casa. O custo visível foi vendido como sacrifício moral; o custo invisível, que é a desindustrialização silenciosa do continente, ninguém coloca no telejornal.
E tem o detalhe geopolítico que os estrategistas de gabinete fingem não enxergar. A Turquia, que é membro da OTAN mas joga sozinha desde sempre, virou o hub energético da Eurásia justamente porque a Europa terceirizou para Erdogan a decisão de quanto gás russo entra pela porta dos fundos. Trocaram a dependência de Moscou pela dependência de Ancara somada à dependência de Washington, e chamaram isso de diversificação. Me diz uma coisa, em que manual de soberania está escrito que substituir um fornecedor por dois intermediários mais caros é ganhar autonomia? É o tipo de raciocínio que só funciona em sala de reunião com ar-condicionado e café grátis pago pelo contribuinte.
A manutenção vai acabar, o gás vai voltar a fluir, e ninguém vai pedir desculpa publicamente pela mentira de que a Europa estava preparada para o inverno sem a Rússia. O cano respira de novo, os preços recuam um pouco, os ministros voltam a discursar sobre transição verde, e o ciclo recomeça até a próxima parada técnica, que pode ser técnica de verdade ou pode ser recado político disfarçado de cronograma de manutenção. A lição que ninguém quer aprender é antiga e simples: quando o governo decide pelo mercado quais são os fornecedores moralmente aceitáveis, o resultado nunca é mais liberdade, é só uma fila diferente de fornecedores cobrando mais caro pela mesma molécula. O continente que inventou a revolução industrial agora pede licença para a Gazprom ligar a chave. É o preço de ter confundido virtude moral com cálculo econômico.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.