A Flywire fechou o primeiro trimestre de 2026 com 43% de aumento na receita e a manchete vendeu a façanha como triunfo de "estratégia de complexidade". Traduzindo do corporativês para o português honesto: a empresa ganha dinheiro porque o sistema financeiro internacional virou um labirinto tão absurdo que pais brasileiros pagando faculdade do filho nos Estados Unidos, paciente argentino indo se tratar em Miami, importador europeu fechando contrato com fornecedor asiático, todos precisam de um intermediário caríssimo só para conseguir transferir o próprio dinheiro de um lugar para o outro. Isso não é inovação, é pedágio. E pedágio só existe onde alguém construiu cancela.
Quem construiu as cancelas? Não foi o mercado. Foi a confederação global de bancos centrais, ministérios da Fazenda, agências de compliance contra lavagem, agências contra terrorismo, agências contra evasão fiscal, agências contra qualquer coisa que justifique mais um formulário. Cada uma dessas siglas exige documentação, validação, retenção, declaração, conciliação. O resultado é que enviar dois mil dólares para a universidade do filho virou uma operação que requer software dedicado, equipe jurídica e margem polpuda para o intermediário. A Flywire não criou esse mercado, ela apenas o colhe. O mercado foi plantado por décadas de regulação que transformou movimento de capital em ato suspeito por presunção.
Olha, há uma beleza perversa nisso tudo. O mesmo Estado que imprime moeda sem lastro, que confisca via inflação, que tributa remessa, que exige declaração de operação acima de um valor ridículo, depois aplaude a "fintech inovadora" que veio resolver o problema criado pelo próprio Estado. É o bombeiro piromaníaco vendendo extintor. E quando a empresa cresce 43% num trimestre, o noticiário econômico chama de boa notícia, como se a expansão de uma indústria de fricção fosse sintoma de saúde, e não de doença. Economia saudável é aquela em que pagar a mensalidade do filho no exterior custa quase nada, não aquela em que custa tanto que justifica uma empresa listada em bolsa só para fazer essa ponte.
Siga o dinheiro e o quadro fica mais claro ainda. A Flywire cobra das instituições, cobra dos pagadores, cobra do câmbio, cobra na conciliação. Cada centavo dessa receita saiu do bolso de alguém que queria simplesmente concluir uma transação que, num mundo de moeda sólida e fronteiras financeiras razoáveis, custaria a comissão de um clique. Os ganhadores são os acionistas da empresa e, indiretamente, os burocratas que justificam seus cargos pela complexidade que perpetuam. Os perdedores são os pais, os pacientes, os estudantes, os pequenos importadores, todos que pagam o spread invisível que ninguém vota mas todos suportam.
O mais irônico é que existe solução tecnológica para isso há mais de uma década, e ela não se chama Flywire. Chama-se moeda digital descentralizada, transferência peer-to-peer, liquidação em minutos sem intermediário regulado. O motivo de essa solução não ter engolido o mercado de remessas internacionais não é técnico, é político. Os mesmos governos que aplaudem a fintech do trimestre perseguem com unhas e dentes qualquer ferramenta que ameace o monopólio do sistema bancário tradicional. Inovação que cabe na regulação vira unicórnio. Inovação que dispensa a regulação vira alvo da Receita, do Banco Central e do Departamento de Justiça.
Então quando ler que tal empresa cresceu 43% vendendo complexidade, lembre-se que complexidade não cai do céu, ela é decretada. E que para cada acionista comemorando dividendo trimestral, há milhões de pessoas comuns pagando a conta sem nem saber que estão pagando. O capitalismo de verdade simplifica e barateia. O capitalismo de compadrio, esse que nasce abraçado ao regulador, vive de manter o cidadão preso num emaranhado que só os iniciados conseguem desatar, mediante taxa. Crescimento de 43% num trimestre não é vitória do mercado. É boletim médico de uma economia mundial que adoeceu de regulação e agora paga caro pelo remédio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.