Kristalina Georgieva, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, declarou nesta semana que os perigos da inteligência artificial para o sistema monetário global "não param de crescer de forma exponencial". A frase foi recebida com seriedade pela imprensa financeira, porque a imprensa financeira está treinada para receber com seriedade qualquer coisa que venha do FMI, instituição que carrega a autoridade moral de quem errou as principais previsões econômicas das últimas quatro décadas e, mesmo assim, segue prescrevendo remédios para economias inteiras sem jamais pagar pelo estrago quando o paciente piora. O alerta é grave. A fonte é, no mínimo, curiosa.

Olha, antes de entender o que o FMI quer dizer com "risco da IA", convém perguntar o que exatamente é esse sistema monetário que precisa de proteção. É o sistema no qual os bancos centrais emitem moeda sem lastro, fixam taxas de juros por decreto, expandem crédito artificialmente em períodos eleitorais e depois culpam "choques externos" quando o boom inevitavelmente vira bust. É o sistema no qual um comitê de tecnocratas decide, numa sala fechada em Washington ou Frankfurt, qual é o preço do dinheiro para bilhões de pessoas que nunca os elegeram e jamais poderão demiti-los. É o sistema que, toda vez que quebra, é salvo com o dinheiro do contribuinte e toda vez que funciona, distribui os ganhos para os bancos que ficam mais próximos da torneira do crédito. Esse sistema. O FMI quer protegê-lo da inteligência artificial.

Me diz uma coisa: o que a IA faz, concretamente, que assusta tanto uma instituição como o FMI? Ela processa informação em velocidade e escala que nenhum analista humano consegue igualar. Ela identifica padrões que ficam invisíveis quando o volume de dados é grande demais para olhos humanos. Ela pode calcular, em tempo real, a exposição real de um banco, a fragilidade real de uma moeda, a inconsistência real entre o que um banco central declara e o que seus balanços revelam. Quer dizer, a inteligência artificial faz exatamente o que o sistema monetário moderno foi arquitetado para dificultar: transparência, velocidade e democratização da informação financeira. O problema não é que a IA vai desestabilizar o sistema. O problema é que a IA pode mostrar o quanto o sistema já é instável, e isso é insuportável para quem vive da opacidade.

Siga o dinheiro. Sempre. Quando uma instituição de poder chama um fenômeno de "risco" e pede regulação urgente, a primeira pergunta não é "qual é o risco?" mas "quem perde se esse fenômeno não for regulado?". Os grandes bancos globais, que já investiram fortunas em departamentos de compliance e infraestrutura regulatória, adoram regulação porque ela ergueu barreiras de entrada que eliminam concorrentes menores. Um banco comunitário ou uma fintech ágil não tem exército de advogados para navegar quinhentas páginas de normas do FMI. O JPMorgan tem. Sempre que Washington ou Genebra emitem um alerta sobre "riscos emergentes", verifique quem patrocina a conferência onde o alerta foi dado e quem lucra com a regulação que virá em seguida. Raramente é o cidadão comum.

Há algo historicamente repetido em momentos como este. Quando uma tecnologia nova ameaça desintermediar as instituições existentes, as instituições existentes não competem com a tecnologia, elas pedem ao Estado que a regule em seu favor. Aconteceu com o telégrafo, com o rádio, com a televisão, com a internet. Em cada caso, o argumento foi proteção pública. Em cada caso, o resultado foi oligopólio privado protegido por regra pública. A Georgieva não está inventando nada de novo. Está executando um roteiro antigo com vocabulário novo, o que é exatamente o tipo de sofisticação que torna a coisa mais perigosa, não menos.

O sistema monetário não está despreparado para os riscos da inteligência artificial. O sistema monetário está despreparado para a verdade sobre si mesmo, e a inteligência artificial tem o inconveniente potencial de entregá-la em alta resolução para qualquer pessoa com acesso à internet. Isso é o que assusta. Não o algoritmo. A transparência. E quando o maior gestor de crises monetárias do planeta pede mais poderes para "gerenciar" uma tecnologia que, em essência, distribui informação, o que está sendo pedido, com toda a solenidade de um comunicado oficial, é o direito de manter o monopólio sobre a narrativa. Sempre foi sobre isso.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.