João Fonseca entrou em Roland Garros como trigésimo do ranking mundial e saiu da primeira rodada com vitória consistente, ritmo próprio e a serenidade de quem sabe que está no lugar certo pelo motivo certo. Próximo adversário definido, torcida brasileira em êxtase, e ninguém parando para perguntar a pergunta que importa, quem produziu esse rapaz? Que ministério? Que política pública? Que programa federal de fomento ao tênis nacional colocou raquete na mão dele aos seis anos de idade? Resposta, nenhum. O talento brotou onde sempre brota, no esforço privado, no investimento familiar, na disciplina pessoal e na cadeia voluntária de treinadores, patrocinadores e clubes que apostaram naquele garoto antes de o garoto valer alguma coisa.
É curioso, ou melhor, é revelador, que o Brasil produza atletas de elite mundial exatamente nas modalidades em que o Estado menos mete o bedelho. Tênis, surfe, vôlei de praia, automobilismo, lutas. Lugares onde o sujeito ou entrega resultado ou cai fora, sem cota, sem cabide, sem edital. Já nas modalidades em que o dinheiro público inunda federação, confederação e comitê, com sigla em cima de sigla e diretor em cima de diretor, o que se vê é a CBF virando novela de delegacia e o futebol brasileiro patinando há vinte anos sem produzir uma geração que assuste alguém. A correlação não é coincidência. É lei.
Toda vez que o dinheiro do contribuinte entra numa atividade, a atividade deixa de servir ao público e passa a servir a quem distribui o dinheiro. Os incentivos invertem. O que era para formar atleta vira cabide de emprego, palanque de político e mesa farta de dirigente vitalício. O resultado aparece nas quadras, ou melhor, não aparece. E quando aparece um Fonseca, um Medina, um Senna, é apesar do sistema, nunca por causa dele. O moleque que serviu hoje em Paris não deve nada a nenhum burocrata de Brasília, e exatamente por isso pôde chegar até lá sem ter que dividir o prêmio com vinte intermediários de gravata.
Há ainda o aspecto moral da coisa, e aqui convém parar um instante. O esporte de alto rendimento é o último território da meritocracia pura num país que decidiu transformar tudo o resto em loteria de privilégio identitário. Na quadra de saibro de Roland Garros não existe cota racial, cota regional, cota de gênero, cota de bairro pobre. Existe a bola entrando ou não entrando, o saque indo ou não indo, a perna aguentando ou não aguentando cinco sets. É justamente essa brutalidade da meritocracia que torna o esporte uma das poucas coisas que ainda mobilizam genuinamente uma nação, porque o povo, por mais doutrinado que esteja, reconhece imediatamente quando vê algo verdadeiro acontecendo diante dele.
Que sirva de lição, embora não vá servir. Cada vez que um brasileiro vence lá fora num esporte que o governo não controla, abre-se uma janela para a pergunta óbvia, e se a gente deixasse o resto do país funcionar do mesmo jeito? E se educação, saúde, segurança e produção fossem deixadas ao mesmo regime de liberdade que produziu Fonseca? A resposta incomoda tanta gente bem instalada no aparelho que a janela se fecha rápido, com novo programa, nova lei, nova secretaria. Mas a vitória de hoje fica registrada, e ela diz mais sobre como uma nação cresce do que mil discursos no Congresso.
Vai lá, garoto. Ganha o próximo. E continua não devendo nada a quem não te deu nada.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.