A notícia chega seca, quase administrativa, como se fosse rotina burocrática: forças dos Estados Unidos atacaram mais uma embarcação no Pacífico Oriental, e a controvérsia sobre as táticas, esta sim, virou o assunto do dia em Washington. Repare na inversão sutil que a manchete já carrega. O fato, afundar um barco com seres humanos a bordo em águas internacionais, é tratado como dado neutro. A polêmica é sobre o método. Quer dizer, ninguém mais discute se o império tem o direito de operar como juiz, júri e carrasco a milhares de quilômetros do próprio território. Discute-se apenas se está fazendo isso com a elegância protocolar adequada.
Olha, é preciso entender o arranjo para não cair na propaganda. A justificativa oficial é o combate ao narcotráfico, aquele inimigo eterno, conveniente, infinito, que há cinco décadas serve de pretexto para tudo que o establishment de segurança nacional quer fazer sem precisar pedir licença ao Congresso. O problema é antigo e a solução proposta é sempre a mesma: mais orçamento, mais bases, mais tecnologia, mais tropas, mais discricionariedade. E o resultado, mensurável em qualquer série histórica honesta, é que o fluxo de drogas só aumenta, os preços só caem, a pureza só sobe. A guerra contra as drogas é o programa público mais caro e mais fracassado da história moderna, e justamente por isso é o mais protegido.
Me diz uma coisa, quem ganha com a perpetuação deste teatro? Siga o dinheiro e a paisagem se ilumina. Ganham os contratos do complexo militar-industrial que fornecem os drones, as fragatas, os mísseis e os softwares de inteligência. Ganham as agências federais que justificam orçamentos bilionários apresentando barcos afundados como troféus estatísticos. Ganham os políticos que precisam parecer duros nas eleições de meio de mandato. Ganham até os cartéis, paradoxalmente, porque a proibição é o que cria a margem absurda que financia a violência que justifica novas intervenções. Quem perde é o contribuinte americano, que paga a conta, e os pescadores latino-americanos eventualmente confundidos com traficantes, que pagam com a vida sem direito a defesa.
A controvérsia sobre as táticas, então, é um cortina de fumaça útil. Permite que o debate se restrinja a tecnicalidades operacionais, regras de engajamento, supervisão congressual fraca, em vez de tocar na questão fundamental: por que um governo qualquer, por mais poderoso que seja, pode decidir unilateralmente que determinada embarcação merece ser destruída sem julgamento, sem aviso, sem possibilidade de rendição? A resposta honesta é que pode porque ninguém o impede. E ninguém o impede porque o império aprendeu há muito tempo que pedir perdão depois é mais barato do que pedir permissão antes, especialmente quando as vítimas não têm passaporte azul.
Há um padrão histórico que se repete com a regularidade de um relógio suíço. Toda potência hegemônica em declínio relativo passa a substituir influência por força, persuasão por intimidação, comércio por sanção, diplomacia por bombardeio cirúrgico. É o sintoma clássico do imperialismo nervoso, aquele que sente o chão tremer e responde aumentando a voz. Os romanos fizeram isso na fase tardia, os britânicos no entreguerras, e os americanos vêm fazendo desde que a hegemonia inconteste do pós-guerra começou a ranger sob o peso da dívida, da impressão de moeda e da concorrência geopolítica multipolar. Afundar barcos no Pacífico Oriental é, neste sentido, mais um gesto de fraqueza disfarçada de poder do que demonstração genuína de força.
O incômodo verdadeiro, o que não cabe na controvérsia oficial, é o seguinte: uma vez que o cidadão aceita que seu governo pode executar pessoas em alto-mar sem processo, baseado em inteligência classificada que ele jamais verá, qual o argumento jurídico que o protege de tratamento semelhante em terra firme caso seja convenientemente classificado como ameaça? A linha que separa o pescador colombiano do dissidente americano é fina, e a história ensina que linhas finas, quando úteis ao poder, são sempre cruzadas. Quem aplaude a execução remota hoje porque a vítima é estrangeira e suspeita não percebe que está construindo a jurisprudência que um dia será usada contra alguém parecido consigo mesmo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.