A Ford acaba de anunciar que pretende fabricar o Bronco, aquele utilitário que vende como símbolo da fronteira americana, em solo espanhol. A justificativa oficial fala em "plano de retomada na Europa", expressão tão vaga que cabe qualquer coisa dentro, inclusive a verdade que ninguém quer dizer em voz alta: a montadora não está retomando coisa nenhuma, está apenas correndo atrás do dinheiro mais barato do planeta, que por enquanto ainda é o dinheiro que sai do bolso do contribuinte europeu via os fundos verdes, os pacotes de eletrificação e as bondades fiscais que Bruxelas distribui como quem joga ração para pombos.
Quem olha de fora vê uma empresa privada decidindo onde alocar capital. Quem olha de perto enxerga outra coisa, bem mais feia. Há mais ou menos quinze anos a Ford abandonou a Europa porque a Europa era cara, regulada até a alma e povoada por sindicatos que transformavam linha de montagem em assembleia permanente. Nada disso mudou, muito pelo contrário, piorou. Então por que voltar? A resposta cabe em três sílabas: subsídio. Quando o governo de plantão coloca cifras de nove zeros na mesa para quem aceitar montar carro elétrico no continente, até a empresa mais cética troca a cartilha e descobre, de repente, um amor inexplicável pela Espanha.
E aqui mora a piada de mau gosto que ninguém na imprensa econômica tem coragem de contar. O Bronco é vendido nos Estados Unidos como manifesto de masculinidade industrial, comercial com sertão, poeira, bandeira tremulando e narração rouca sobre o espírito americano. Pois esse mesmo veículo, daqui a pouco, será parafusado por mão de obra espanhola dentro de uma planta sustentada por incentivo público europeu, para depois ser exportado de volta com selo de autenticidade. É a globalização do crony capitalism em sua forma mais nua: a marca finge nacionalismo, o consumidor finge que acredita, e o governo paga a fantasia dos dois lados do Atlântico.
Há quem diga que isso é "estratégia inteligente de mercado". Mercado, meu caro, é quando o empresário arrisca o próprio capital lendo a demanda do consumidor. Isto aqui é outra coisa. Isto é leitura de edital. A Ford não está respondendo a quem quer comprar Bronco, está respondendo a quem quer dar dinheiro para quem promete montar Bronco. São coisas diferentes, e confundi-las é o pecado original de toda análise econômica feita por gente que nunca tirou as mãos do bolso do governo. Quando uma decisão de produção depende mais do humor do regulador do que da preferência do cliente, o que se tem ali não é capitalismo, é uma estatal disfarçada com logotipo bonito.
Olha, a história ensina que toda vez que um governo decide qual indústria deve florescer, ele acaba financiando os fracos para que sobrevivam e punindo os fortes para que não desequilibrem o jardim. O resultado a gente já viu de novela mexicana: fábricas que duram exatamente o tempo do incentivo, empregos que evaporam quando o cheque para, consumidores que pagam mais caro por produto pior, e contribuintes que descobrem, anos depois, que financiaram do próprio bolso o desemprego dos próprios filhos. A Espanha, que já dançou esse tango com a energia eólica e com a indústria solar, vai dançar de novo, dessa vez ao som do motor elétrico americano. E quando a música parar, ninguém vai estar com a cadeira.
O detalhe que torna tudo mais grotesco é o silêncio dos economistas oficiais. Os mesmos doutores que escrevem colunas inteiras lamentando "a desindustrialização" e exigindo "política industrial robusta" são exatamente os que aplaudem quando uma multinacional escolhe seu país para receber benesse fiscal, como se isso fosse mérito, como se atrair capital subsidiado fosse a mesma coisa que gerar riqueza. Não é. Riqueza nasce de produtividade real competindo livremente; o que nasce de subsídio é dependência travestida de progresso, e dependência, todo viciado sabe, sempre cobra a conta no pior momento possível.
No fim do dia, o que se vê é uma marca americana fabricando um símbolo americano em chão europeu com dinheiro público europeu para vender de volta ao americano que paga imposto sem saber que está pagando duas vezes. Chamam isso de plano de retomada. Eu chamo de pilantragem com terno bem cortado.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.