A Forefront Tech Holdings tocou o sininho da Nasdaq e embolsou cem milhões de dólares num IPO que a imprensa financeira descreveu, como sempre descreve, com aquele entusiasmo de quem confunde captação com produção. Quer dizer, ninguém parou para perguntar a coisa mais elementar: de onde sai esse dinheiro que, ano após ano, encontra uma empresa nova de sigla bonita para abraçar? Não cai do céu, não brota da poupança paciente de operários frugais, não vem do sujeito que economiza para trocar a geladeira. Vem da torneira, daquela torneira que governos centrais abriram em 2008 e nunca mais conseguiram fechar direito, e que jorra crédito artificial procurando rendimento como água procura o ralo.

Olha, o IPO em si não é o pecado. O pecado é o ambiente. Numa economia saudável, abrir capital seria o coroamento de uma trajetória de lucros reais, fluxo de caixa robusto, modelo de negócio testado contra a chuva e o sol. No mundo pós-impressora, virou outra coisa: virou estação de transferência. O fundador captura múltiplos delirantes, o banco de investimento embolsa fees que fariam corar um agiota medieval, e o investidor de varejo, aquele que entrou animado pela manchete, fica segurando o mico quando a maré do dinheiro fácil recuar. E ela vai recuar. Sempre recua.

Me diz uma coisa, alguém leu o prospecto? Alguém checou se a Forefront tem receita recorrente, margem operacional defensável, vantagem competitiva sustentável, ou se é mais uma daquelas histórias bem contadas sobre inteligência artificial, blockchain, sinergia disruptiva e outros termos que servem para encobrir o fato de que o negócio queima caixa? A pergunta nem precisa de resposta porque o mecanismo opera independentemente da resposta. O dinheiro precisa ir para algum lugar, e vai. Esse é o ponto. A bolha não escolhe seus vasos com critério de virtude empresarial; ela transborda nos recipientes mais próximos.

Siga o dinheiro e o quadro fica claro. Os bancos coordenadores, os escritórios de advocacia, os auditores, os assessores de relações com investidores, toda essa fauna que parasita cada IPO como cracas no casco de um navio, esses todos saem ricos antes mesmo do primeiro pregão fechar no vermelho. Os fundadores monetizam participações que valiam pó três anos atrás. Os fundos de venture que entraram nas rodadas iniciais conseguem a saída que justifica a tese. Quem fica com o prejuízo, quando ele chega, é o cidadão comum que confiou no entusiasmo da CNBC e na cara séria do CEO no roadshow.

O mais cômico é o vocabulário oficial. Chamam isso de "mercado de capitais funcionando". Funcionando para quem, exatamente? Numa moeda honesta, atrelada a algo escasso e não fabricável por decreto, esse tipo de festa não aconteceria com essa frequência industrial. As empresas precisariam mostrar serviço de verdade, e o capital, sendo escasso, escolheria com a parcimônia de quem sabe que não há mais de onde tirar. O que existe hoje é o oposto: capital abundante porque inventado, decisões frouxas porque o custo de errar foi socializado, e uma indústria inteira treinada para aplaudir cada novo sino tocado como se fosse triunfo civilizatório.

Então fica o registro. A Forefront pode até ser uma empresa decente, e talvez seus cem milhões saiam bem aplicados, talvez ela construa algo durável, talvez. Mas o ritual em si, a coreografia repetida ad nauseam de cada semestre, é sintoma de uma doença monetária que ninguém quer diagnosticar porque o diagnóstico exigiria remédio amargo. Enquanto isso, batem o sino, brindam com champanhe, e o relógio segue contando o tempo até o próximo estouro. A festa é boa, ninguém duvida. A ressaca é que ninguém quer pagar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.