Existe uma certa ironia cruel no fato de uma moeda se valorizar não pela força da economia que representa, mas pela promessa de que seu governo vai, enfim, aceitar o dinheiro que estava bloqueado. O forint subiu. Os analistas aplaudiram. Os jornais falaram em "nova era". E ninguém, absolutamente ninguém nos grandes veículos, teve a honestidade intelectual de perguntar o óbvio: se o dinheiro da União Europeia estava bloqueado, é porque havia condições. E se havia condições, alguém as impôs. E se alguém as impôs, isso tem um nome que não é "democracia", é tutela.
O dinheiro europeu não existe num vácuo. Cada euro "desbloqueado" de Bruxelas vem costurado com fios invisíveis que determinam o que o país beneficiário pode e não pode fazer, quais leis deve aprovar, qual linguagem deve adotar, quais organismos deve tolerar dentro de seu território. Siga o caminho do dinheiro até o fim e você encontrará, invariavelmente, não um presente de irmãos europeus solidários, mas uma transação: soberania por subsídio. A Hungria acabou de fechar esse contrato novamente, e a imprensa chama isso de vitória democrática. Quer dizer, se vitória democrática significa voltar a fazer o que Bruxelas manda, então sim, vitória estrondosa.
Orbán era um personagem complexo, cheio de contradições, longe de ser o liberal de mercado que os conservadores de carteirinha gostariam de ter como ícone. Mas ele encarnou algo que os burocratas europeus nunca perdoaram: a ousadia de dizer não. A ousadia de tratar tratados como negociações, não como evangelhos. A ousadia de lembrar que a Hungria tem história, fronteiras, povo e tradição próprios, e que esses elementos não se dissolvem automaticamente ao assinar um documento em Bruxelas. Esse "não" lhe custou bilhões em fundos bloqueados e, no fim, custou o poder. A lição que fica para outros líderes na Europa Central é tão clara quanto deprimente: resista, e nós apertamos o torniquete econômico até você ceder ou cair.
Olha, a narrativa que se construiu foi impecável. "Oposição pró-europeia vence." Pró-europeia. Como se o campo contrário fosse anti-europeu, como se amar seu país e desconfiar de uma burocracia supranacional fossem a mesma coisa. É um truque retórico tão antigo quanto eficaz: batize seu adversário com um nome que o torna automaticamente o vilão, e metade do debate já está vencida antes de começar. Quem é contra a "integração europeia" é contra a Europa, logo, contra a paz, logo, contra o bem. O silogismo é falso, mas funciona, e a imprensa repete sem questionar porque questionar implicaria mexer num consenso que remunera generosamente quem o mantém.
O que se vê é o forint valorizando e as manchetes celebrando. O que não se vê são as condições que virão junto com os bilhões, a cessão progressiva de competências nacionais, a adoção de marcos regulatórios decididos em comitês que nenhum húngaro votou, a lenta e silenciosa dissolução da capacidade de um povo de decidir seus próprios rumos. Uma nação que depende de transferências externas para manter sua moeda relevante não é uma nação economicamente soberana, é uma administração regional com bandeira própria. E quando essa distinção desaparece do debate público, a democracia que se celebra é apenas o ritual de escolher quem vai assinar os documentos que outros já redigiram.
A Hungria virou página. Mas cuidado com quem escreve a próxima.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.