O ex-embaixador chinês em Washington, Cui Tiankai, escolheu o Diálogo Shangri-La em Singapura para apresentar ao mundo uma fórmula nova de embrulhar a mesma encomenda de sempre. Chama-se "estabilidade estratégica construtiva", e a Bloomberg cobriu como quem registra uma descoberta filosófica. Olha, quando um quadro vitalício do Partido Comunista, que serviu como vice-ministro de Relações Exteriores de uma ditadura, te oferece "estabilidade", a primeira pergunta honesta é simples: estabilidade para quem, fixada em que termos, e que preço se paga por ela.
O vocabulário diplomático chinês é uma obra-prima de engenharia semântica. "Cooperação ganha-ganha" significa que ganha a empresa estatal subsidiada por Pequim e perde o concorrente americano que opera sob regras de mercado. "Não interferência em assuntos internos" significa que ninguém pode falar de Xinjiang, Hong Kong ou Tibete, mas Pequim pode comprar parlamentar em Bruxelas e jornalista em Nairóbi. "Estabilidade estratégica" significa, na prática, que os Estados Unidos aceitem como dado consumado tudo aquilo que a China construiu nos últimos vinte anos enquanto o Ocidente dormia abraçado à fantasia de que comércio liberaliza regime autoritário.
Quem segue o dinheiro entende o jogo. Trilhões saíram do contribuinte americano e do consumidor europeu rumo a fábricas em Shenzhen e Guangzhou, financiando a maior transferência de capacidade produtiva da história. Esse capital construiu a marinha que hoje cerca Taiwan, as ilhas artificiais que militarizam o Mar do Sul, a Rota da Seda que captura porto africano e ferrovia balcânica, o programa espacial que pousou na face oculta da Lua. E agora, com o tabuleiro armado, o emissário aparece em terno bem cortado pedindo "estabilidade". Quer dizer, depois que o cofre foi esvaziado, o ladrão propõe um pacto de não agressão.
O leitor distraído lê "estabilizar relações" e pensa em paz, em diálogo, em adultos resolvendo divergências numa mesa redonda. O leitor que aprendeu a desconfiar lê a mesma frase e percebe a manobra: trata-se de congelar o status quo num momento em que o status quo favorece quem está congelando. É a tática clássica do enxadrista que, vendo a posição vantajosa, propõe empate. Washington tem todo direito de recusar, e na verdade tem a obrigação moral de fazê-lo, porque "estabilidade" com um regime que persegue cristãos, esteriliza muçulmanos, sequestra livreiros de Hong Kong e ameaça invadir uma democracia vizinha não é estabilidade, é cumplicidade.
Há ainda o detalhe que ninguém em Davos quer mencionar. O modelo chinês não é uma alternativa civilizacional ao Ocidente liberal; é um parasita que prosperou exatamente porque o Ocidente liberal existiu. Sem mercados consumidores ricos para absorver o excedente industrial, sem tecnologia ocidental roubada ou licenciada barato, sem capital estrangeiro implorando para entrar, o milagre chinês seria mais uma Coreia do Norte com piscinas. A "estabilidade" que Cui propõe é a estabilidade do hospedeiro que continua alimentando o parasita em nome de não provocar mal-estar à mesa.
O que se vê é o sorriso diplomático e o discurso medido em Singapura. O que não se vê é o cálculo frio de quem sabe que cada ano de "estabilidade construtiva" é mais um ano de chips, mais um ano de portos, mais um ano de tratados bilaterais que cercam o adversário sem disparar um tiro. Estabilidade é a palavra que o lobo usa quando convida o cordeiro para uma conversa franca sobre o futuro do pasto.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.