Um ex-embaixador americano aparece na Bloomberg avisando que Trump pode encerrar o cessar-fogo com o Irã a qualquer momento, e no parágrafo seguinte informa que uma delegação dos Estados Unidos embarca para Islamabad, provavelmente na quarta, para uma segunda rodada de conversas. Quer dizer, o mesmo governo que ameaça romper a trégua manda emissários para negociá-la. Isso não é política externa, é gerenciamento de manchete. E enquanto a manchete oscila, o preço do barril de petróleo oscila junto, o dólar oscila junto, e cada oscilação enriquece quem estava posicionado e empobrece quem não estava.
Olha, toda vez que Washington descobre que precisa de uma "crise controlada" no Oriente Médio, o roteiro é o mesmo. Sobe o tom, desce o tom, marca reunião, desmarca reunião, vaza para a imprensa, desmente o vazamento. No fim da dança, três coisas acontecem invariavelmente: o complexo industrial militar fecha trimestre recorde, o Tesouro americano emite mais dívida para bancar o espetáculo, e o cidadão comum descobre que a gasolina subiu de novo sem entender direito o porquê. O que se vê é o presidente firme na defesa dos interesses nacionais. O que não se vê é a fatura que já está chegando no boleto de todo mundo.
Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que essas negociações são sobre enriquecimento de urânio? Siga o dinheiro. Quem ganha com o cessar-fogo mantido? Os exportadores de energia que precisam do Estreito de Ormuz aberto, os fundos expostos a dívida emergente, os lobbies que precisam de estabilidade para vender armas sob contrato de longo prazo. Quem ganha com o cessar-fogo rompido? Os mesmos lobbies, agora vendendo munição de reposição, mais os especuladores que estavam comprados em petróleo na véspera do anúncio. É um cara e coroa onde a moeda é lançada pelo governo americano e os dois lados da moeda pertencem aos mesmos donos.
A escolha de Islamabad como sede da conversa é sintomática e merece atenção. O Paquistão é o país que historicamente funciona como corredor quando Washington quer negociar sem aparentar que está negociando, e como palco quando quer aparentar que negocia sem concluir nada. Montar uma segunda rodada ali, com o presidente ameaçando quebrar a primeira, é a confissão de que o processo inteiro é performance. Se houvesse seriedade, haveria silêncio. O barulho é o produto, não o subproduto.
Existe ainda o detalhe que ninguém quer comentar: uma república que precisa de crise externa permanente para justificar orçamento de guerra permanente já deixou de ser república no sentido clássico do termo. Virou um arranjo onde o poder executivo escolhe o inimigo da estação, a imprensa vende o pacote, o congresso carimba o cheque e o contribuinte paga sem direito a perguntar para onde foi. A diplomacia deveria ser o instrumento que evita esse ciclo. Tornou-se o instrumento que o alimenta.
No fim das contas, cessar-fogo que depende do humor de um homem não é paz, é refém. E refém sempre tem preço. A única dúvida é quem está autorizado a pagar o resgate dessa vez, e com o dinheiro de quem.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.