O pregão asiático abriu em êxtase porque a NVIDIA divulgou números acima do esperado, e bastou isso para que TSMC, SK Hynix, Samsung, Foxconn e meia dúzia de coadjuvantes taiwaneses, coreanos e japoneses saltassem como se tivessem ganhado na loteria. A imprensa financeira chama isso de "efeito cadeia de suprimentos". Eu chamo de outra coisa, mais antiga e menos lisonjeira, a palavra é vassalagem. Quando o trimestre de uma única empresa americana é capaz de mover trilhões em capitalização de mercado do outro lado do mundo, não estamos diante de um ecossistema saudável, estamos diante de um arranjo feudal disfarçado de inovação.
Olha, é preciso entender o que esses números significam. A NVIDIA não é uma empresa de chips no sentido em que a Intel um dia foi. Ela é o gargalo monopolista da única coisa que importa hoje em Wall Street, que é a promessa de inteligência artificial. E como toda economia construída em torno de um gargalo único, ela cria uma corte de dependentes que respiram pelo pulmão do suserano. A TSMC fabrica, a SK Hynix fornece memória, a Foxconn monta, e todos rezam para que o trimestre seguinte da NVIDIA não decepcione. É a divisão internacional do trabalho levada ao ponto patológico, onde a especialização deixou de ser virtude e virou refém.
Quer dizer, ninguém aqui está contra a NVIDIA prosperar, longe disso. O ponto é outro, é a ilusão de que esse arranjo é resultado puro do livre mercado funcionando. Não é. Por trás de cada chip que sai de Taiwan existe uma teia de subsídios, incentivos fiscais, política industrial americana via CHIPS Act, política industrial chinesa via Made in China 2025, política industrial coreana, política industrial japonesa, todas brigando para garantir que sua empresa local esteja na cadeia certa quando a próxima onda de capex chegar. O que se vê é o pregão eufórico. O que não se vê é o contribuinte americano, taiwanês, coreano, financiando o banquete que enriquece acionistas institucionais que nunca pisaram numa fábrica.
E há ainda o problema que ninguém quer enxergar, porque ele desmonta a narrativa confortável do "boom da IA". Esses saltos sincronizados de ações asiáticas após balanços americanos são exatamente o tipo de comportamento que precede correções históricas. Bolha não é quando os preços sobem, é quando os preços sobem porque todo mundo está apostando na mesma carta. E hoje meio planeta financeiro está apostando que a NVIDIA continuará entregando crescimento exponencial trimestre após trimestre, indefinidamente, como se a lei da utilidade marginal tivesse sido revogada por decreto do Vale do Silício. Não foi.
O que se está construindo, na verdade, é uma estrutura econômica em que governos asiáticos terceirizaram a definição de seu próprio sucesso industrial para o departamento de vendas de uma empresa em Santa Clara. Taiwan inteira hoje é, na prática, um anexo geopolítico da cadeia de suprimentos da NVIDIA, e essa é uma das razões pelas quais a China não pode invadir a ilha sem detonar a economia mundial, o que aliás é o melhor seguro de vida que Taipei já contratou. Mas seguro de vida não é projeto de civilização, é apenas adiamento de problema.
Me diz uma coisa, quando uma economia inteira passa a respirar pelo ritmo de divulgação de resultados de uma empresa estrangeira, ainda dá para chamar isso de soberania? A festa de hoje no pregão asiático é o tipo de notícia que parece boa enquanto dura, e que historicamente costuma terminar com alguém pagando uma conta que não fez. Quem vai pagar dessa vez ainda não está claro, mas a conta já está sendo impressa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.